A literatura e a geografia de Cabo Verde na escrita de seu presidente

2017-12-10
Fonte: Correio Braziliense
Foto por: Fnac

 

«O albergue espanhol», um escritor planeja meticulosamente o romance que ainda não escreveu. Lista os temas sobre os quais falará, decide que apenas nomes com cinco letras e “azulado som” entrarão no texto, escolhe uma cidade verde e afrodisíaca para servir de rota de emigração e avisa ao leitor, logo no início, que ele encontrará ali mares, navegantes, brisa, nuvens, artesanatos e cavalos. É inusitado «O Albergue espanhol» de Jorge Carlos Fonseca, jurista nascido em Mindelo, na ilha de São Vicente, em Cabo Verde, e presidente reeleito do país em 2016.
Fonseca esteve no Brasil para participar da 5.ª Flinksampa — Festa do conhecimento, literatura e cultura negra, realizada na Faculdade Zumbi dos Palmares. Fio lançar o livro e falar sobre literatura em vozes polifónicas. Dividiu uma mesa de debates com o também cabo-verdiano Filinto Elísio e com a brasileira Conceição Evaristo. As vozes do romance de Fonseca — o primeiro depois de dois livros de poesia — são universais, mas não há como não remeterem também a um país formado por imigrantes e cuja característica geográfica de arquipélago com muitos vulcões e poucos recursos naturais é definidora do modo de vida de sua população.
Cabo Verde é formado por 10 ilhas e uma população de pouco mais de 500 mil habitantes, dos quais boa parte mora fora do país. Independente desde 1975, é hoje uma república autónoma cada vez mais próxima do Brasil graças a acordos de cooperação em educação e pesquisa em universidades. Também conhecido pela música, especialmente a morna, um ritmo popularizado por Cesária Évora, o arquipélago tem uma literatura premiada, com nomes como Armênio Vieira, vencedor do Prémio Camões de 2009, e movimentos como o Claridade, que, nos anos 1930, marcou a chegada da modernidade na escrita cabo-verdiana.
Jorge Carlos da Fonseca não tem uma escrita convencional e seu «O albergue espanhol» fica a meio caminho entre a prosa e a poesia. “Esta obra é um longo poema, escrito de forma pouco ortodoxa, fora dos cânones tradicionais da poesia, um longo poema que pretendeu ser romance. É um exercício estético”, avisa. “Depois da publicação, houve uma polêmica se era um romance, se era poesia, se era uma categoria híbrida.” Em entrevista, Fonseca conversou com o Correio sobre as características da literatura em Cabo Verde, mas também sobre o país, sua língua e sua semelhança com o Brasil quanto ao processo de formação de identidade nacional.

«O albergue espanhol» é um romance universal, mas carrega também referências que o localizam em Cabo Verde. Essa foi a intenção?
Realmente, se o livro não for visto com cuidado pode parecer uma obra literária sem uma ancoragem ou referências centradas em Cabo Verde, nas ilhas, no dia a dia do arquipélago, nos problemas sociais, humanos, políticos e outros. Seria uma escrita de todos os lugares, também falaria do amor, da paixão, das mulheres, da solidão, de deuses. Muitos diziam que era uma obra de estatura surrealista, que é uma ideia que vem das minhas outras obras poéticas e também do que tenho escrito. Mas o livro, naturalmente, reflete o fato de ser cabo-verdiano. Falo da limaia, das cabras, de uma paixão rural, mas também falo dos mares, oceanos, dos poetas cabo-verdianos, falo de certa maneira de ver chuva ou não ver chuva, da seca. Mas, evidentemente, tudo isso é um material que utilizo para produzir um resultado estético. É minha conceção da literatura.

O senhor veio ao Brasil para um evento que celebra a literatura e a cultura negra. Como essa questão da cultura negra é discutida em Cabo Verde? Ela está presente na literatura?
Sei que isso se discute no Brasil, mas Cabo Verde é um país cujo processo de formação histórico-social é muito marcado pela mestiçagem. Foi um país descoberto, não havia população autóctone, fomos povoados por portugueses que trouxeram escravos da costa africana. Disso resultou um processo longo e doloroso, mas que se traduziu em uma nação com uma identidade particular que, no fundo, resulta de muitos pedaços do mundo, muitos bocados de permuta de valores, de culturas, sendo também um país muito aberto ao mundo. Formou-se uma experiência de mestiçagem social e cultural que creio que é uma das mais conseguidas em nível do mundo. Não digo que não haja preconceitos, naturalmente que há, mas não são propriamente um problema tal qual no Brasil e outras partes do mundo. Na vida política, para dar um exemplo, ser mulato, branco, escuro não tem influência nenhuma do ponto de vista social. Já tivemos quatro presidentes. Não temos esse problema, não tem nenhum diferencial. É uma experiência de mestiçagem profunda.

Nós também vivemos essa experiência de mestiçagem no Brasil, mas há um sentimento muito forte e vivo de que a democracia racial é um mito e que é preciso discutir o racismo porque ele existe. É diferente em Cabo Verde?
Não conheço o Brasil como conheço Cabo Verde. Mas o problema aqui é bem diferente do Brasil. Aqui a população é maioritariamente mestiça. Creio que não é bem o caso brasileiro.

Existe a possibilidade do crioulo vir a ser a língua oficial de Cabo Verde, já que é a língua falada por todos os cabo-verdianos?
Isso é uma polêmica em Cabo Verde. Nossa Constituição estabelece o português como língua oficial e também diz que o estado deve criar progressivas condições para que o crioulo seja também a língua oficial. Na prática, já é. O crioulo é usado na televisão pública e privada, na rádio. Todos os comícios políticos, 98% deles, são em crioulo. Normalmente, o português é utilizado nos órgãos oficiais e instituições públicas.

Mas existe a possibilidade de se tornar língua oficial, como desejam alguns movimentos?
Existem muitos segmentos aqui que lutam pela imediata oficialização. Eu, como presidente da República, sou defensor da Constituição. Eu mesmo entendo que as condições devem ser aceleradas e criadas para que o crioulo seja também oficializado. Agora, pode-se oficializar imediatamente, mas não há condições para que, de fato, seja um plano de igualdade com a língua portuguesa. O país tem que estudar bem o crioulo. Já há algum estudo, a gramática, estudos linguísticos, mas não são suficientes. Eu, por acaso, escrevo em língua portuguesa, mas há poesia em crioulo, há romances, mas não são maioria. E a música cabo-verdiana, e somos um país de música, 90% é em crioulo. E a música traduz o modo de ser, estar e sentir da alma crioula. São raras as produções musicais que usam suporte em língua portuguesa.

Novembro 2017

 

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