Luandino apresentou «Papéis da Prisão»

2016-01-10
Fonte: Diário Digital / Lusa

 

O escritor angolano José Luandino Vieira apresentou, no passado dia 25 de novembro, na Fundação Gulbenkian, em Lisboa, os seus até agora inéditos «Papéis da Prisão» (Caminho), afirmando: «O que está aqui não é um livro, são 12 anos da vida de uma pessoa».
Avesso a aparições públicas, o autor de "Luuanda", obra que o celebrizou e que o administrador da Gulbenkian Guilherme d'Oliveira Martins hoje classificou como "obra fundadora da moderna literatura angolana", vive retirado em Vila Nova de Cerveira e acedeu a participar na sessão de apresentação desta obra fragmentária editada pela Caminho, com o apoio da Gulbenkian.
"Peço aos que puderem ler, que o leiam apenas com o sentimento de que o que está aqui não é um livro, são 12 anos da vida de uma pessoa, multiplicados por cada segundo que, nesses 12 anos, eu multiplicava por tudo quanto me vinha à cabeça - e nem sempre eram coisas recomendáveis", observou.
"De uma maneira geral, eram coisas injustas, como também repararão, mas fui convencido a deixar publicar isto antes de morrer, estes papéis, por duas razões: porque, ao reler-me, encontro em tudo ainda uma pequeníssima fagulha de qualquer coisa que precisa de ser soprada, e porque publicar depois de morto é muito fácil, ninguém assume a responsabilidade", explicou.
O escritor prosseguiu, chamando a si a responsabilidade de todo o processo que culminou na publicação destes escritos: "Fui eu que recolhi os papéis, fui eu que montei e ajudei a montar e depois desenvolver as nossas redes de comunicação no interior das cadeias, no pavilhão prisional da PIDE, na quarta esquadra, na cadeia central da PSP em Luanda, na cadeia da polícia judiciária na avenida do Hospital".
O volume reúne apontamentos vários, incluindo de cancioneiros populares recolhidos aos pedaços aos outros prisioneiros, reproduzidos nas respetivas caligrafias de semiletrados, um diário e correspondência que os académicos do Centro de Estudos Sociais (CES) da Universidade de Coimbra Margarida Calafate Ribeiro, Roberto Vecchi e Mónica Silva selecionaram de um total de 17 cadernos, em conjunto com o autor, procedendo depois à fixação de texto.
"Esta é uma obra sobre a liberdade, sobre a importância da liberdade e sobre o que temos de fazer quando ela falta", vincou Margarida Calafate Ribeiro, precisando que, além de uma seleção do "mar de papéis" de Luandino, o volume inclui igualmente "uma longa entrevista" feita pelos organizadores ao escritor em Vila Nova de Cerveira e "uma cronologia".
"É uma grande obra de muitos fragmentos que, no encaixe, encontra um sentido é a arte da memória que perpassa todos os papéis", resumiu por seu turno, Roberto Vecchi.
Rui Vieira Nery, Diretor do Programa Gulbenkian de Língua e Cultura Portuguesas, destacou "a dimensão poética, lírica, destes documentos, que os torna uma obra de qualidade literária, por si só, impressionante", depois de caracterizar Luandino Vieira como "uma figura que é uma referência literária para todo o universo de expressão portuguesa, além de uma referência ética, cívica e moral para todos os democratas".
O responsável adiantou que haverá também uma sessão de lançamento dos "Papéis da Prisão" em Angola, "para a qual a Gulbenkian está já em contacto com as autoridades governamentais angolanas e com a União de Escritores Angolanos.
Acrescentou ainda que a obra "deverá ter uma difusão alargada através das edições em francês, inglês e italiano e da realização de um colóquio científico que se propõe debater o seu impacto no estudo da realidade dessa época".

 

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