Pandemia faz emergir "nómadas digitais"

2020-09-06
Fonte: RTP
Foto por: Vlada Karpovich no Pexels

Com a chegada da pandemia da Covid-19, o teletrabalho foi uma obrigação para muitos setores. No entanto, muitas pessoas veem esta nova realidade como uma oportunidade para viajar enquanto trabalham, à medida que cada vez mais países estão a convidar à prática de trabalho remoto com a atribuição de vistos de residência.

O conceito “nómada digital” não é novo, mas a pandemia da Covid-19 veio reinventá-lo. Obrigada a trabalhar a partir de casa, uma parte da população decidiu trabalhar remotamente a partir do estrangeiro, apoiados por programas que lhes permitem a estadia até um ano.
De forma a responder à atual crise, alguns países estão a convidar estrangeiros a trabalhar remotamente, ao atribuírem vistos de residência de um ano. Isto permite que cada pessoa viva legalmente e trabalhe remotamente nesse país até um ano. Todos os países que adotaram este programa têm a pandemia controlada e cada um implementou protocolos rígidos, que podem incluir quarentena obrigatória de 14 dias à chegada e a realização de testes antes e depois da chegada ao país.
Sadie Millard, diretora administrativa de uma corretora em Wall Street e residente em Manhattan, nos EUA, aderiu ao conceito de “nómada digital” nas Bermudas.
Pensei, se vou ficar aqui ou ali, prefiro ficar nas Bermudas onde me sinto mais segura, dadas as fortes regras que o Governo estabeleceu para testar e controlar o vírus”, explicou Millard à BBC. “E, se eu tiver de regressar a Nova Iorque para uma reunião, é quase mais rápido apanhar um voo das Bermudas do que conduzir a partir de Hamptons”, disse Millard.
Estes novos esquemas de atribuição de vistos de residência geraram, assim, uma versão 2.0 do estilo de vida “nómada digital”: mais prolongado, ponderado e dirigido a um público totalmente diferente.
O Governo das Bermudas, que abriu as fronteiras a 1 de julho, apresenta relativamente poucas restrições para a obtenção do visto de residência. Para além do seguro de saúde válido, é exigida uma taxa de inscrição de 263 dólares. “Esperamos que este visto possa ser um teste experimental para alguns empresários”, disse Glenn Jones, CEO da Autoridade de Turismo das Bermudas, com esperança de que estes trabalhadores prolonguem a sua residência por um tempo indeterminado.
As Bermudas são apenas um dos muitos destinos que estão a adotar estes programas de trabalho à distância. A ilha caribenha de Barbados implementou uma estratégia semelhante a 24 de julho. Com a atribuição de um visto de residência igualmente de 12 meses, a ilha de Barbados exige uma taxa de inscrição de dois mil euros e um comprovativo de salário anual de pelo menos 50 mil euros.
A maioria dos territórios referidos aderiu a estes programas como uma forma de estimular o setor do turismo, particularmente afetado pela pandemia, ao convidar turistas com estadia de longo prazo, que representam menos riscos de infeção por Covid-19 do que os turistas temporários.

Teletrabalho: a nova normalidade?
A pandemia veio mudar a forma como as entidades patronais olham para o teletrabalho. Muitas das empresas admitem permitir essa opção aos seus trabalhadores mesmo no período pós-pandemia.
Uma pesquisa global levada a cabo pela empresa de consultoria Gartner, concluiu que mais de 80 por cento dos 127 diretores de empresas entrevistados afirmaram ter planos para permitir o trabalho à distância mesmo depois de estarem asseguradas as condições para regressar aos escritórios.
As pessoas passaram as últimas quatro décadas a pedir mais flexibilidade para trabalhar a partir de casa e a pandemia fez por essa conversa o que décadas de negociações sindicais não foram capazes de alcançar”, disse Dave Cook, antropólogo.
Marilyn Devonish, especialista em trabalho flexível, explica que se observou uma “mudança sísmica na forma como o mundo funciona, com o trabalho remoto e flexível provavelmente a tornar-se a normalidade assim que a pandemia acabar, uma vez que as organizações aprenderam como gerir efetivamente e motivar os funcionários em teletrabalho”.
Aliado ao teletrabalho, o interesse pelo trabalho à distância a partir de um país estrangeiro também está a crescer, principalmente com a emergência destes programas de atribuição de vistos de residência.
A Estónia, que já vinha a elaborar este esquema de trabalho remoto há dois anos mas só agora foi lançado, realizou uma pesquisa para avaliar o interesse da população neste programa dado o panorama atual. O estudo concluiu que 57 por cento dos entrevistados considerariam ir viver para outro país para trabalhar remotamente, apontando como fatores positivos o modo de vida mais barato e a experiência cultural. O interesse era superior entre os trabalhadores mais jovens (63 por cento), dos 18 aos 34 anos, em comparação com a população com mais de 55 anos.
Ott Vatter, Diretor Administrativo da e-Residência - o programa que permite o acesso a serviços da Estónia a estrangeiros -, diz que o novo programa de atribuição de vistos de residência visa atrair pelo menos 1.800 requerentes.
Já Dave Cook permanece cético relativamente ao trabalho remoto a partir de outros países, considerando que a ideia de nomadismo digital é usada como uma “preguiçosa ferramenta de marketing”. O antropólogo argumenta que alguns países “estão apenas a procurar formas de aumentar o turismo sem realmente perceberem a perspetiva de nómada digital”.
No entanto, Cook admite que estes novos vistos de residência sugerem que “vamos conseguir uma junção desta subcultura de nómadas digitais e esta conversa global sobre trabalho remoto”. O antropólogo explica à BBC que a distribuição destes vistos poderá levar um segmento de trabalhadores que nunca considerou trabalhar no exterior a perceber agora o seu potencial atrativo. E para os nómadas digitais que procuram novos destinos, este pode ser um incentivo para desacelerar, estabelecerem-se num lugar e usarem a oportunidade como um “teste experimental”.
O que este termo 'nómada digital' irá significar daqui a um ano é uma grande questão”, disse Cook. “Mas as pessoas estão a começar a sonhar novamente e a imaginar um novo e melhor futuro”, acrescentou.

Agosto 2020

 

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