Próximo boom do e-commerce deve surgir em países como o Brasil, diz ex-VP do Alibaba

2019-05-07
Fonte: Época NEGÓCIOS
Foto por: avel Kunitsky from Pexels

Porter Erisman é um evangelizador do comércio eletrónico. Aposta na tecnologia desde quando, na época da bolha da internet e do desprezo do Walmart pela Amazon, não se acreditava que novas varejistas surgidas na web pudessem fazer frente às gigantes das lojas de departamento. Embarcou no projeto do Alibaba em 2000, apenas um ano após sua fundação, e ajudou, como Vice-Presidente, a empresa de Jack Ma dominar a China e depois ganhar o mundo. Quando saiu da empresa, em 2008, ela já era bilionária.

Hoje, Erisman continua ligado ao setor, mas como consultor e investidor de empresas, além de teórico do futuro das vendas online. Ajudou empresas em países como Nigéria e Vietnan a montar estratégias de crescimento, e escreveu um livro sobre o que viu no Alibaba e outro sobre as tendências mais recentes do setor.
Agora, prepara uma terceira obra, sobre a importância dos mercados emergentes para o futuro do e-commerce. Estará em países como Índia, Indonésia e Brasil, afirma Erisman, o próximo boom do crescimento desse mercado. Admirador do modelo de negócios do Magazine Luiza, ele acredita que o Mercado Livre, sucesso crescente há décadas por aqui, está na mira das gigantes internacionais, que sabem desse potencial.
Em passagem pelo país para uma palestra na fabricante de produtos à base de papel Softy’s, Erisman falou à Época NEGÓCIOS sobre o futuro do comércio eletrónico, a importância (ou falta) de tecnologias como a Alexa e os cases exemplares que viu por aqui.

Muito se fala sobre os enormes investimentos que o varejo faz em inovação. Mas há quem aponte uma superestimação do que a tecnologia pode fazer pelo setor, sobretudo no comércio eletrônico, onde os custos já são reduzidos. Qual sua opinião a respeito?
É interessante ver que o comércio eletrônico nos mercados emergentes não era visto como grande coisa até o IPO do Alibaba [o maior da história na época, em 2014]. Havia investimento aqui e ali, mas não se prestava muita atenção até esse movimento acontecer. E de repente o Alibaba mostrou que o e-commerce pode funcionar nesses mercados e houve um boom de investimentos. Agora, a empresa vale quase US$ 500 bilhões. Agora, as mesmas pessoas que investiram no Alibaba estão rodando o mundo procurando novos casos como esse. Inclusive o Softbank, que acabou de criar um fundo bilionário para investir na América Latina.
Antes disso acontecer, o Alibaba tinha milhares de competidores. Parecia que havia uma bolha, que os investimentos não virariam nada. Mas aí eles e algumas outras empresas deram certo, e mostraram que vale a pena investir em inovação. Acho que estamos em um momento parecido agora: há muito investimento que não vai dar resultado. Mas os que acertarem vão ganhar muito. E a boa notícia é que já há muitos investidores dispostos a colocar dinheiro em boas ideias, então você tem chance de sucesso mesmo se tiver um pequeno negócio ou uma startup.

Você comentou em sua apresentação a admiração pelo crescimento da Magazine Luiza. Qual foi o maior acerto deles, em sua opinião? E que outros casos bem-sucedidos de atuação no e-commerce você enxerga por aqui?
Se você olha nos Estados Unidos, poucos grandes varejistas sobreviveram à internet. Na minha cidade natal, Denver, fui recentemente onde havia uma grande e antiga livraria que era uma referência no bairro em que morava. E vi que foi substituída por uma loja da Amazon cheia de novos recursos, como uma seção com os “livros que mais vendem no seu código postal”. Coisa que ninguém fazia, e que foi uma das formas pelas quais a Amazon destruiu o varejo para então reconstruí-lo.
O Brasil e outros mercados emergentes ficaram um pouco imunes a isso porque tem problemas muito específicos, e acabou dando tempo de empresas como o Magazine Luiza criarem seu próprio caminho. O que eu gosto no negócio deles é que são extremamente práticos. É como se dissessem: “Quer saber? Não vamos trazer nenhuma inteligência artificial maluca ou plataforma de realidade virtual. O que queremos é saber o que o consumidor precisa exatamente agora”. E eles entenderam: o consumidor quer pesquisar na internet, e até compra por lá, mas quer passar na loja para conferir o produto. A empresa combina as experiências de comércio eletrônico e lojas físicas para fazer o negócio dar certo.
Outro negócio que deu muito certo por aqui é o Mercado Livre. E não surpreende, porque o que venho dizendo é que o futuro do e-commerce nos mercados emergentes está nos marketplaces.

Por falar nisso, outro comentário seu foi que, se o Alibaba vier para o Brasil um dia, não será com um site próprio, mas comprando um competidor como o Mercado Livre. Acha que isso pode acontecer no futuro próximo?
Acho que sim. Na verdade, acho bem provável. O Alibaba vale US$ 500 bilhões, tem poder de investimento, e o Mercado Livre vem tendo um ótimo desempenho. Eles já fizeram investimentos semelhantes em países como Indonésia e Índia. Acho que há uma conexão entre o Alibaba e o Mercado Livre em termos de modelo de negócio, mas é verdade também que a Amazon e outros grandes competidores também gostariam de compra-los. É uma empresa muito atrativa. E eu acho admirável que os fundadores do Mercado Livre se mantiveram independentes esse tempo todo. Mas não sei quanto tempo vai durar.

Todas essas empresas tentam lidar com o que se considera um grande desafio do e-commerce atualmente, que é o modelo de entrega dos produtos aos consumidores. Que tipo de solução é mais eficiente?
O que tem funcionado bem em mercados desenvolvidos é a retirada na loja. Tem duas vantagens: o consumidor pode ver e inspecionar o produto antes finalizar o negócio, e o pagamento é feito diretamente, não há nenhum intermediário no meio do caminho.
Em mercados emergentes como o Brasil, no entanto, é muito mais provável que se firme o uso de empresas de delivery. Nos Estados Unidos custa US$ 18 a hora para alguém entregar suas encomendas, mas por aqui ou na China é muito mais barato. E com o problema da desigualdade, e as favelas, o Brasil tem muitas pessoas procurando oportunidades econômicas, e o trabalho como entregador muitas vezes é a forma encontrada de entrar no mercado de trabalho. Então, ao menos no curto prazo, é o que deverá acontecer no país.

Há quem diga que o comando de voz, com assistentes eletrônicos como a Alexa, irá revolucionar a vida das pessoas e o consumo com a mesma intensidade que a internet o fez décadas atrás. Qual sua visão sobre essa tecnologia e suas possibilidades?
Acho que é possível, mas muito incerto. Eu mesmo, que sou totalmente do comércio eletrônico, não compro pela Alexa, porque acho uma experiência muito ruim. Há uma piada dentro da Amazon, que diz que o Jeff Bezos falou para a Alexa “compre algo no Whole Foods”, e ela respondeu com “comprar o Whole Foods?”. E aí ele teria decidido comprar a rede. É uma piada, mas a verdade é que a tecnologia precisa ser aperfeiçoada. Há muitas possibilidades surgindo, mas não acho que esse seja o caso de uma verdadeira disrupção no consumo. As tecnologias são ótimas, mas elas não podem estar muito á frente da imaginação do consumidor. E tecnologias como a Alexa, realidade virtual, estão bastante à frente do que o consumidor precisa no momento atual.

Abril 2019

 

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