Cabo Verde conhece a sua primeira casa inteligente

2017-06-09
Fonte: Expresso das Ilhas
Foto por: Expresso das Ilhas

Pelas mãos de dois estudantes de Informática e Gestão, Belito Xavier e Abdulay Fonseca, recorrendo a microprocessadores, a primeira Casa Inteligente torna-se numa realidade em Cabo Verde. Trata-se do Bloco E, infraestrutura da Universidade Jean Piaget de Cabo Verde, na cidade da Praia, Campus do Palmarejo Grande.

A partir de uma web page, concebida de raiz por Xavier e Fonseca, donos da empresa MicroKII e vencedores do 5.º Start Up Universitário, tem-se o controlo desse edifício nas suas mais variadas funcionalidades. “Nós vamos ter acesso ao controlo da ventoinha, da luz de teto, luz do quadro, tomadas, portas, ar condicionado e iluminação pública no recinto da universidade”, elucida Belito Xavier.
Almejando a redução dos custos com a eletricidade e uma gestão eficiente, todas essas funcionalidades são comandadas nessa web page. “Um dos maiores problemas da UniPiaget é o consumo da energia elétrica. Atuaremos como um sentinela através dessa página, cujo acesso podemos ter de onde quisermos, inclusive fora do continente, e controlaremos o edifício inteiro”, salienta Belito Xavier.
Para garantir maior segurança, o acesso a certos compartimentos do edifício é controlado através de um cartão. “Igualmente nós vamos ter restrição de acesso, tendo em conta que existem lugares sensíveis, como a sala dos professores, os laboratórios onde nem todos podem ter acesso, e ainda temos a sala que vai abrigar todos os quadros e dispositivos inteligentes”, aponta Xavier.
A inteligência da casa estende-se também ao jardim do Bloco E. “Vamos introduzir um sensor de humidade na terra ao pé de cada planta que vai calcular se ela está a necessitar de água ou não. Caso o solo estiver ressequido o sistema vai mandar água automaticamente sem precisar da presença de alguém”, explica Belito Xavier.

Tornar o Bloco E autónomo foi o objetivo
A primeira conquista foi ter acendido uma lâmpada num sketch de um computador. Da automação do Laboratório de Inovação e Desenvolvimento Tecnológico da UniPiaget à conceção de uma maqueta de casa inteligente não demorou muito.
No mês de dezembro do ano passado foi-lhes colocado o desafio de fazer a automação do Bloco E da UniPiaget, tornando-o num edifício inteligente. Sem hesitar, embarcaram nessa “aventura tecnológica”, seguros de que estavam a embrenhar-se numa área onde praticamente tudo seria novo e desconhecido.
Segundo Belito Xavier, aceitaram o projeto com o objetivo de reduzir os gastos da universidade com a eletricidade e funcionários. Vai ter muito impacto na redução dos custos com a eletricidade e funcionários. Pretendemos que o Bloco E funcione sozinho, sem um funcionário”, perspetiva Belito Xavier.

Sonhar o impossível, força motriz de Xavier e Abdulay
Para Abdulay Fonseca a idealização das “coisas esquisitas e teoricamente inexequíveis” foi um estímulo. “É por isso que sempre digo que nada disso seria possível se nós não pensássemos apenas asneiras. Desde o segundo semestre do primeiro ano do curso começámos a cogitar na possibilidade de fazer algo diferente”, conta Abdulay, admitindo que chegou mesmo a pensar na possibilidade de fazer a energia elétrica funcionar da mesma forma que uma rede de telemóvel.
Entre sonhos, pesquisas na Internet, e-learning, estudos e experiências, Belito Xavier e Abdulay Fonseca alcançaram a meta de materializar um edifício inteligente utilizando microprocessadores.
A casa inteligente foi concebida para funcionar em modo automático e manual. “Ou seja, eu posso acender uma luz numa sala através da web page, mas se uma pessoa que estiver na sala não estiver interessada em ter a luz acesa ela poderá apagá-la usando o interruptor”, explica Abdulay Fonseca, avançando que caso o sistema falhar, o modo manual continuará a funcionar normalmente.
Para além do sistema da MicroKII ter um preço muito reduzido comparativamente ao sistema importado do estrangeiro, Belito Xavier garante que a eficácia é exatamente a mesma. “Qual é a diferença? A diferença é que pagaram milhares e milhares de contos para equipas da Alemanha virem fazer, enquanto nós próprios fazemos os nossos”, enfatiza Xavier, ressaltando que o sistema que produzem vai competir com os importados. “O que tentamos fazer é mudar a mentalidade das pessoas e demonstrar que temos a mesma qualidade”, enaltece.
A nossa tem mais qualidade”, ressalta Abdulay Fonseca. Na sua opinião, a aquisição de um sistema todo pronto, em caso de erro, acarreta mais custos. Pois, há que trazer especialista para vir fazer o trabalho. “Com o nosso produto não acontece isso. O nosso é uma coisa simples em que se tem a possibilidade de corrigir o erro de acordo com o que pretendemos”, explica Abdulay Fonseca, pondo a tónica na utilização de open source (código aberto).

Mercado para Casa Inteligente em Cabo Verde
Face ao predomínio da tecnologia, Belito Xavier acredita que há mercado para Casa Inteligente em Cabo Verde. “Hoje em dia a tecnologia está a prevalecer sobre todas as coisas. O que estamos a fazer é acompanhar a atualidade. Vamos aprender coisas de fora aplicamo-las aqui na nossa realidade”, afirma.
Para o engenheiro informático e docente universitário, Juvenal Pereira, inclusive o Estado vai querer ter edifícios inteligentes, objetivando a racionalização e otimização dos recursos. “Creio que haverá espaço para a ideia ou o projeto vingar-se em Cabo Verde. Além do mais, a ‘indústria 4.0’ que é marcada, sobretudo pelo poder da ‘internet das cosias’, incluindo inteligência artificial e automação, vai fazer com que haja mais espaço ainda”, salienta Juvenal Pereira.
A segurança é uma das principais razões para que se invista numa Casa Inteligentes em Cabo Verde. “Creio que muita gente vai querer ter uma casa inteligente que zele pela sua própria segurança e a dos seus habitantes”, sublinha Juvenal Pereira.
Segundo Belito Xavier, a aposta da MicroKii recai sobre a segurança e a redução do custo. “Dois aspetos que certamente caem no agrado dos cabo-verdianos”, constata. “Ainda não temos cliente porque ainda estamos na fase de apresentação. Entretanto, garantimos que é uma coisa nova/inovadora”, defende.

Casa Inteligente reúne simpatia
Segurança, redução dos custos com a eletricidade, sobretudo comodidade e rentabilidade do tempo são razões que fazem com que a casa inteligente em Cabo Verde receba aprovação.
Vai melhorar, de forma radical, a maneira como nós interagimos com as nossas casas e elas connosco. Vai permitir-nos melhor controlo de segurança das nossas habitações ou edifícios públicos e privados”, aponta Juvenal Pereira, acrescentado que as casas assumirão comportamentos, quer seja presencialmente quer seja à distância, a partir de qualquer parte do mundo desde que tenhamos acesso à rede/internet.
Por exemplo, as casas podem enviar-nos alertas/notificações em relação a eventuais perigos internos como incêndio, inundação, esquecimento, intrusão, etc. Mais do que isso, passarão a ser elas próprias a tomar certas decisões e agir por nós,” diz Pereira.
Para o arquiteto Marco Borges trata-se de uma grande salto a nível tecnológico em Cabo Verde. “Incorporar a segurança, arquitetura, comunicação e lazer em uma única rede de comandos é elevar Cabo Verde ao mais alto nível da tecnologia”, sublinha este arquiteto.
Receoso em termos do preço de uma iniciativa do género, Borges defende a combinação dos fatores tecnológico e arquitetónico para que a casa possa ser de facto inteligente.
Economizar tempo, dinheiro e garantir a segurança, três razões que levam Wilma Gomes, jurista, a optar por uma casa inteligente. “Acredito que com uma casa inteligente estarei a economizar tempo e dinheiro. Poderei controlar os eletrodomésticos e também garantir uma certa segurança através de sensores, câmaras de segurança, alarme, etc.”, argumenta.
A ideia inovadora também recebeu aprovação do informático Ricardo da Luz, classificando-a como “um grande avanço tecnológico”. “Para além de permitir ter maior controlo sobre a casa, facilitaria muita gente, principalmente as pessoas que têm algumas limitações”, enaltece da Luz.
O conceito de casa inteligente resulta da combinação de vários aspetos: programação de hardware, software, automação, inteligência artificial, construção civil e arquitetura, internet, dispositivos móveis, entre outros.

Junho 2017

 

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