Como a IA, a robotização e uberização afetarão o emprego?

2017-04-10
Fonte: CIO/ Cezar Taurion
Foto por: Cortesia de vectorolie em FreeDigitalPhotos.net

A cada dia ouvimos mais e mais sobre a Inteligência Artificial e os seus impactos na sociedade, nos empregos e nas funções. Entretanto, até recentemente a IA era similar à fusão nuclear, uma promessa não cumprida.

Muitas expetativas foram frustradas ao longo de décadas de experiências. Mas, agora, a IA está a mostrar um potencial ainda não totalmente conhecido para alcançar capacidades humanas. E, com isso, está rapidamente a tornar-se uma tecnologia fundamental em áreas tão diversas como veículos autónomos e negociações financeiras. Algoritmos de Machine Learning e Self Learning já são rotineiramente incorporados a muitos serviços. E as implicações são profundas!
Alguns afirmam que a IA não vai afetar significativamente os empregos, enquanto outros afirmam o contrário. Embora não tenhamos ainda provas definitivas, aqui e ali já aparecem estudos e pesquisas que mostram que sim, a IA vai afetar uma série de profissões, e o que vai variar é o grau deste impacto.
Recentemente li um artigo que me chamou muita atenção: “JPMorgan Software Does in Seconds What Took Lawyers 360,000 Hours”. Descreve a iniciativa do banco americano num projeto de IA chamado COIN (Contract Intelligence), que realiza automaticamente análises de acordos de empréstimos que consomem, em média, 360 mil horas de trabalho por ano de advogados e agentes de crédito. Além de rever os documentos em segundos, o software é menos propenso a erros e nunca tira férias! O JP Morgan está em pleno processo de Transformação Digital e uma frase do seu Diretor de TI é emblemática: “Anything where you have back-office operations and humans kind of moving information from point A to point B that’s not automated is ripe for that”.
O impacto da Transformação Digital e da IA nos negócios e na sociedade será a de um devastador tsunami e não deve, sob nenhuma hipótese, ser negligenciado.
Um estudo recente - “Robots and Jobs: Evidence from US Labor Markets” - mostrou alguns dados preocupantes. De acordo com a pesquisa, direcionada para o mercado americano, um robot por mil trabalhadores reduz o índice emprego/população em cerca de 0,18-0,34 pontos percentuais e os salários em 0,25-0,5 por cento. Para cada novo robot adicionado a uma fábrica americana nas últimas décadas, registou-se uma redução de 6,2 trabalhadores empregados em torno da função automatizada.
Bem, mas o mercado americano é diferente de países em desenvolvimento, como o Brasil! Certo, mas, infelizmente talvez esta diferença não signifique proteção, segundo um estudo chamado “Automation is set to hit workers in developing countries hard”. Na verdade isto já está a acontecer na China, onde as indústrias estão agora voltar-se para máquinas inteligentes como substitutos para o trabalho humano.
Uma fábrica de eletrónicos em Xangai já substituiu dois terços da sua força de trabalho humana e planeia tornar-se 90% automatizada nos próximos anos. A Foxconn que fabrica produtos eletrónicos para empresas como a Apple, recentemente substituiu 60 mil trabalhadores por robots em uma única fábrica. Esses exemplos estão longe de serem isolados. A China já instala muito mais robots industriais do que qualquer outro país, e no próximo ano terá superado os dois maiores países industriais, EUA e Alemanha, em número de número de robots industriais em operação.
Um relatório do Banco Mundial intitulado “Digital Dividends” aponta que dois terços de todos os empregos no mundo em desenvolvimento enfrentam a real possibilidade de serem automatizados, embora a velocidade de substituição seja incerta e "dependa do ritmo da disrupção tecnológica" adotada pelo país.
Um artigo publicado no New York Times, por um economista de Harvard (“The Mirage of a Return to Manufacturing Greatness”), analisa que a desindustrialização prematura nos países em desenvolvimento faz com que a renda desses trabalhadores se posicione num patamar muito mais baixo do que nos Estados Unidos e na Europa Ocidental, antes do início da transição para uma economia de serviços.
Em outras palavras, os salários situam-se em patamares muito baixos para que os cidadãos dos países em desenvolvimento possam transformá-los na força consumidora necessária para sustentar uma produção automatizada, possibilitada pela Quarta Revolução Industrial. E na economia de serviços o fenómeno da uberização muda significativamente o conceito de empregos, com os pagamentos sendo realizados apenas pelo tempo que realmente trabalha, com tendência a baixar renda e deixar em aberto questões como aposentadoria, seguro saúde e assim por diante.
A Quarta Revolução Industrial está apenas no seu início e seus impactos no longo prazo ainda são bastante incertos, simplesmente porque ainda não temos dados disponíveis suficientes para termos uma visão clara de como a IA, a robotização e uberização afetarão o emprego e as funções.
A Quarta Revolução Industrial não irá replicar o passado, simplesmente porque a rápida adoção em massa da robótica e da IA ameaça destruir muitas indústrias quase simultaneamente, sem dar tempo de recuperação à economia e a sociedade em geral. Os avanços da robótica podem ser tais que, de repente, a maioria, senão todas as funções humanas básicas envolvidas no trabalho manual, poderão ser realizadas de forma mais eficaz e mais barata por máquinas, com a vantagem destas serem capazes de trabalhar continuamente com um custo marginal mínimo.
A Inteligência Artificial promoverá uma nova relação entre humanos e máquinas, e transformará a natureza do trabalho como conhecemos hoje. Claro que a Quarta Revolução Industrial também irá criar novos empregos. São necessárias pessoas para construir os sistemas de IA. O Uber, por exemplo, contratou centenas de especialistas automotivos, dos quais cerca de 50 são do Instituto de Robótica da Universidade Carnegie Mellon. Os especialistas em IA são os profissionais mais procurados hoje em Wall Street. Em segundo lugar, os seres humanos podem fornecer o senso comum, habilidades sociais e intuição que as máquinas não têm. Infelizmente, estima-se que estes novos postos de trabalho, de alta qualificação, não serão suficientes para compensar o número de postos de trabalho pouco qualificados perdidos para a automatização. O relatório do Banco Mundial alerta que "os países em desenvolvimento devem abraçar a revolução digital" e "redesenhar os sistemas de educação para criar as habilidades gerenciais e trabalhistas necessárias para operar novas tecnologias".
A Quarta Revolução Industrial não é opção, mas uma necessidade para os países se manterem competitivos. Há uma perceção que a maioria das economias dos países desenvolvidas estão mal preparadas para a quarta revolução industrial. Em economias mais atrasadas como a brasileira, essa perceção é realidade! Isso pode significar a deslocação de milhões de empregos, a destruição de muitas empresas hoje sólidas e tradicionais que serão lentas em se adaptar e um grande aumento na desigualdade de renda na sociedade.
Infelizmente, percebo que, aqui no Brasil as discussões sobre o efeito da IA e seus impactos continuam muito distantes. Nada se ouve sobre o assunto pelos legisladores e gestores públicos, pouco se fala nas empresas, e em grande parcela da academia o assunto está restrito a poucos pesquisadores de ciência da computação.
Sim, no Brasil estamos bem atrasados. Mas é um grande equívoco subestimar os riscos decorrentes da disseminação destas novas tecnologias.
Recomendo a leitura de um instigante artigo publicado na Economist ( “Will robots displace humans as motorised vehicles ousted horses?”) que faz uma analogia do uso massivo de IA e robótica no emprego com a chegada dos automóveis e a substituição dos cavalos. O artigo deixa claro que a resposta é que provavelmente a IA não provocará tal efeito, "mas os seres humanos têm muito a aprender com a experiência equina".

Abril 2017

 

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