Salimo Abdula, Presidente da Confederação Empresarial fala a Mercados Africanos

2017-04-10
Fonte: Mercados Africanos
Foto por: CE-CPLP

 “Foi um desafio que aceitei por considerar que com a minha experiência profissional e de vida no associativismo, e com o apoio de todos, poderia contribuir para uma CPLP mais forte economicamente

Porque decidiu ser líder da confederação empresarial da CPLP?
A minha entrada para liderar a CE-CPLP foi muito rápida, posso até dizer que apanhou-me de surpresa. Na época (2013), a CE-CPLP estava em regime de liderança rotativa pelos países membros e era a vez de Moçambique liderar a organização por dois (2) anos. Nos dois primeiros anos de Moçambique, foi a Associação Industrial de Moçambique (AIMO) através do Dr. Carlos Simbine a presidir a CE-CPLP. No segundo ano era a vez da Confederação das Associações Económicas de Moçambique (CTA) a presidir. A CTA indicou-me para o cargo. Foi tudo muito rápido, quando dei conta já era presidente da CE-CPLP. Foi um desafio que aceitei por considerar que com a minha experiência profissional e de vida no associativismo, e com o apoio de todos, poderia contribuir para uma CPLP mais forte economicamente.

Quais foram os objetivos que conseguiu alcançar até agora?
Temos um plano estratégico de 2015 a 2020. Sozinho não é possível alcançar nada, tenho contado com grande apoio da massa empresarial da CPLP e de pessoas com muito boa vontade. Objetivamente, algumas coisas que podemos apontar como feitos de sucesso é a transformação e reconhecimento da nossa organização no mundo da CPLP e fora da CPLP. Hoje os governos reconhecem a CE-CPLP como um braço económico importante da CPLP pelo trabalho que temos vindo a realizar. Exemplo disso é o facto de em 2014, na reunião de Chefes de Estado e de Governo da CPLP, a nossa organização ser designada como pilar económico da CPLP, passando a ser convidada para apresentar relatório de atividades nas reuniões e cimeiras dos Governos da CPLP. Demos um cunho verdadeiramente institucional a organização, culminando com o seu reconhecimento. Organizamos a casa e deixamos de ser uma espécie de ‘‘clube restrito de amigos’’. Os nossos estatutos de hoje e o plano estratégico não deixam dúvidas sobre para onde queremos levar a organização. Outro exemplo que posso dar sobre este reconhecimento é o convite que nos tem sido feito por países que não são da CPLP para dar a conhecer a nossa organização. Foi nesse contexto que estivemos em Londres, Berlim e Varsóvia em 2016.

A dimensão empresarial e económica começa, embora timidamente, a tentar construir a sua própria via no quadro da CPLP, onde a tónica dominante tem sido a língua e a cultura. O que já se fez e o que pensa fazer para acelerar esse processo?
Trabalho árduo. É isso que estamos a fazer, é isso que tem de ser feito. Mas deve ser feito não só pela CE-CPLP, mas de forma integrada entre o sector empresarial, os governos e as diferentes instituições da Sociedade Civil, em todos países da nossa comunidade. Do nosso lado, temos estado a aproximar cada vez mais posições, tentando criar uma maior articulação com os governos e sector privado da CPLP para alcance de alguns objetivos que consideramos fundamentais, e um deles como sabe, é a livre circulação de pessoas, bens e capitais. Prova desse trabalho, foram as nossas deslocações para todos países da CPLP no ano passado, para interagir com os governos e respetivas sociedades. Este trabalho foi um sucesso.

Segundo um relatório recente do FMI, se a CPLP fosse um país seria a sexta maior economia do mundo. No entanto o fraco crescimento económico prognosticado para os nove países membros da Confederação Empresarial para 2017 é preocupante. Quais as ações que os estatutos da CE-CPLP lhe permitem empreender em apoio a uma mudança da situação?
O sector privado é a força motriz do desenvolvimento da economia. O governo tem as ferramentas necessárias para implementar mudanças que permitam maior circulação de pessoas, bens e capitais, fatores que sem dúvida alavancam a economia. Esta maior circulação que defendemos, assim como a implementação de maior rigor, transparência e “governance” por parte do empresariado, aliado ao crescimento da nossa representatividade como sector privado, nos permite dizer que estamos a fazer o nosso papel. Cada um deve fazer o seu papel. Governos, sociedade e sector privado devem usar dos meios que dispõem para que economicamente tenhamos maior expressão no panorama mundial.

Embora a CPLP e consequentemente a CE-CPLP tenham ambições globais, a realidade é que a lusofonia não é praticamente conhecida e muito menos reconhecida, como um espaço económico tal como a Francofonia ou a Commonwealth. Acha que há possibilidades reais de ultrapassar esta situação? E se sim, como?
A resposta desta questão está na questão anterior. Cada um deve fazer o seu papel. Sector privado deve produzir, os governos devem regular para facilitar o crescimento da produção, do emprego e do bem-estar social. Temos de remar todos para a mesma direção.

A livre circulação de pessoas, bens e capitais é uma utopia ou há margem de manobra para se tornar realidade?
Eu acredito que seja possível. Se formos a reparar com atenção, de uns anos para cá, as coisas tem mudado. A supressão de vistos de entrada entre os países da CPLP tem acontecido. Hoje por exemplo, com passaporte diplomático o individuo pode viajar para qualquer país da CPLP sem precisar pedir visto. Temos informação de acordos a serem discutidos para suprimir os vistos nos passaportes comuns. Nós temos estado a trabalhar para uma realidade em que o empresário não necessite de visto para circular na CPLP, e realmente não deveria precisar. O empresário deve estar preocupado em produzir, em criar empregos e para isso ele precisa circular livremente.

Segundo o último relatório Doing Business elaborado pelo Banco Mundial, sobre o ambiente de negócios de 190 países, publicado em 25 de Outubro de 2016, os nove países membros da Confederação Empresarial encontram-se colocados entre os lugares 123 e 182 na tabela classificativa. Portugal em 25.º lugar baixou duas posições face ao ano 2015. O que faz a CE para promover um melhor ambiente de negócios no espaço CE-CPLP? E nesse sentido qual é o papel do Instituto de Formação?
O instituto de formação e certificação vem para dar asas a um projeto de uma marca CPLP nos produtos e serviços dos nossos países. Uma marca que cumpre os requisitos padronizados de qualidade a nível mundial, aumentando desta forma a nossa competitividade.

Embora não sejam homogéneas, as realidades empresarias dos PALOP de forma global, diferem das suas congéneres Brasileiras e Portuguesas. Como trata a Confederação Empresarial essas especificidades?
Estas especificidades são uma grande oportunidade para nós. Usamos a experiência, conhecimento e tecnologia dos brasileiros e dos portugueses, e a mão- de- obra dos PALOP para fazer crescer as nossas economias. Acreditamos que como bloco somos mais fortes, por isso temos como lema na CE-CPLP: Se queres ir rápido vai sozinho, mas se quiseres ir longe, vamos juntos.

Março 2017

 

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