A televisão está finalmente a ter o seu momento de revolução digital

2017-01-16
Fonte: The Economist
Foto por: Cortesia de SOMMAI em FreeDigitalPhotos.net

O futuro da televisão estava previsto para chegar mais ou menos agora, num banho de sangue digno das cenas mais sangrentas da série “Game of Thrones”. O elevado custo da TV por cabo na América, conjugado com um serviço ao cliente desastroso e o aparecimento de serviços streaming a pedido como substitutos baratos, irá levar milhões a desistir do seu operador de cabo. Os clientes vão ter TV na internet e pagar muito menos por isso. Muitos canais obscuros, com baixas audiências irão entretanto desaparecer rapidamente.

Pelo menos, era isto o que muitos na indústria antecipavam. Em vez disso, a morte anunciada da velha televisão tem sido através duma hemorragia lenta. Os lares americanos começaram a desviar-se da oferta por cabo, mas a um ritmo de apenas 1% anual. O número de espetadores de televisão está em declínio, especialmente entre os muito cobiçados jovens. Contudo, as empresas de media continuam a prosperar, porque os preços dos anúncios continuam a subir e o preço da TV por cabo continua também a subir anualmente, O uso da Netflix e outros serviços de streaming explodiu – metade dos lares americanos subscrevem agora pelo menos um – mas como serviços adicionais, não como substitutos. Os americanos estão, em geral, a pagar mais do que nunca pela TV.
Isto não pode continuar por muito mais tempo. O preço “gordo” do pacote de 200 canais por cabo está rapidamente a tornar-se antiquado, enquanto opções streaming mais “magras” emergem. Agora dois gigantes tecnológicos, Amazon e YouTube (propriedade da Google), assim como a Hulu, um serviço de video-streaming detido pela Disney, Fox e NBC Universal, estão a negociar para oferecer televisão em direto pela internet até ao fim do ano ou no início do próximo ano. Irão oferecer grandes redes de comunicação e muitos desportos populares e canais de entretenimento a um preço que irá fazer descer a conta mensal para quase metade, ou seja para $40 ou $50.
Isto ameaça aumentar o que era e ainda é o melhor negócio na história dos meios de comunicação. Os conglomerados dos meios de comunicação ofereciam um pacote de alguma coisa para toda a gente - no início, a um preço razoável. A audiência crescia juntamente com o número de canais, o que era bom para os anunciantes, para os estúdios que produziam shows e para as ligas desportivas que vendiam direitos de transmissão. Os operadores de cabo e redes usufruíam de grandes margens de 30-60% e promoviam alegremente novos equipamentos como gravadores de vídeo digitais e ainda mais canais através dos seus clientes regulares.
Mas estão a tornar-se menos leais. O ritmo para se desligarem não foi tão rápido como se esperava, mas começou a acelerar. O número de pessoas que abandonam o cabo todos os anos supera o número dos que aderem e tal acontece desde 2013. Durante um tempo as perdas foram modestas, de quase meio milhão de lares em 2013 e 2014, em 101 milhões de assinantes. Contudo, no ano passado, a TV tradicional paga perdeu de repente 1.1 milhões de assinantes. Muitos mudaram para um “pacote magro” (“skinny bundle”) na internet da Sling TV, um novo produto da Sling Dish Network, um prestador de TV-satélite. Os investidores entraram em pânico quando Bob Iger, Diretor Executivo da Disney, reconheceu em agosto passado que as pessoas estavam a sair até da ESPN, uma cadeia de desporto e a media mais lucrativa da empresa. Desde então, as ações na Disney e na Fox caíram quase 20%.
Os que saem quase nunca voltam, juntando-se aos “millennials” que evitam tornarem-se assinantes do cabo, designados pelos executivos dos meios de comunicação como os “cord-nevers”. Estes foram conquistados para o mundo da assinatura de vídeo a pedido (vídeo-on-demand): Netflix, Amazon Prime video, Hulu, HBO Now e serviços que custam à volta de $10 a $15 por mês.
Para estancar esta sangria, os operadores de cabo podem oferecer pacotes “triple pay” que juntam banda larga, televisão e serviço de telefone, o que lhes dá a vantagem no preço. Podem também contar com a população mais velha que vê mais televisão que qualquer outro grupo, que vê mais do que era habitual e que não adere a outro serviço. Os serviços de Internet podem correr mal quando entram na TV-streaming. Um serviço internet da HBO, detida pela Time Warner, sofreu recentemente um blackout quando um episódio muito esperado da série “Game of Thrones” estava prestes a começar, facto que irritou os clientes. Os primeiros assinantes irão manter a assinatura; outros irão esperar para ver.
Mas com o tempo as mudanças ameaçam ser prejudiciais para alguns atores que vivem agora de grandes pacotes: grandes companhias de media com fraca programação como a Viacom (a empresa pode vender uma grande parte no seu estúdio de cinema à Dalian Wanda Group, um conglomerado chinês de entretenimento, para fazer dinheiro), canais pequenos independentes que beneficiaram ser parte de uma longa cadeia, de operadores de satélites, que têm pouco para vender se não TV. Os vencedores e sobreviventes serão as companhias de comunicação que oferecem TV que todos queremos ver, juntamente com uns poucos canais não desejados. Os conteúdos cobiçados serão sempre reis, tal como aconteceu com a recente venda de um nicho da liga por $4 mil milhões. As empresas de cabo podem ainda ganhar a continuação da venda da internet de banda larga e, talvez, serviços de streaming.
Mas quem fica claramente a vencer serão os consumidores. Em 2008, os assinantes de cabo tinham 129 canais para escolher e viam uma média de 17 canais numa semana. Cinco anos mais tarde, tinham 189 canais e continuavam a ver apenas 17.5, menos de um décimo da oferta disponível. As suas faturas, ao contrário do rendimento disponível, duplicaram neste século.
O facto de mais telespectadores não terem mudado de canal para uma melhor opção é o resultado de dois fatores. O primeiro é que os clientes estão ainda habituados à TV em direto, especialmente desporto, e os pacotes com preços elevados oferece-lhes exatamente isso. Empresas de comunicação têm disponibilizado ofertas elevadas por direitos desportivos. A ESPN da Disney e a TNT, detida pela Time Warner, estão a pagar conjuntamente $24 mil milhões pelos direitos de transmissão dos jogos de basquetebol da NBA para os próximos nove anos, quase o triplo da quantia que pagavam no contrato anterior. O segundo fator é que os clientes têm falta de opções fiáveis e baratas. Isto está a mudar com a chegada de serviços como a Sling TV, com 700.000 assinantes, adianta Michael Nathanson, da MoffettNathanson, uma empresa de pesquisa. Outro novo pacote acessível da Sony PlayStation Vue ultrapassou recentemente 100,000 assinantes.
Muitos mais podem acabar por aderir à Hulu. Os seus progenitores em termos de media parecem ter aceitado os riscos de disrupção do modelo existente como forma de apostar no futuro através de espectadores mais jovens; espera-se que as negociações do canal decorram sem sobressaltos. E pelo menos o produto Hulu prossegue o seu conceito de pacote altamente lucrativo. Um proprietário, NBC Universal, é detido pela Comcast, uma empresa de cabo que pode perder muito com a saída, mas que não tem opinião nas operações da Hulu, e tem mesmo que participar segundo o que as leis da concorrência ditam e de acordo com o regulador dos meios de comunicações. A Time Warner está também a considerar juntar-se.
A Hulu está agora a testar combinações de canais a vários preços, cerca de $40 a $50 por mês, próximo de pacotes semelhantes aos da Sling TV e Sony PlayStation Vue. Isto implica uma margem pequena, mas o seu Diretor Executivo, Mike Hopkins, afirma que levar as pessoas a aderir a outros pacotes é apenas uma questão de preço. Elas podem aproveitar-se de serviços adicionais, tais como a opção de stream em múltiplos equipamentos, gravar e guardar espetáculos na nuvem e assinar canais premium.
A Amazon e o YouTube estão certos que vão ainda criar muito ruído, embora os seus planos ainda não tenham sido desvendados. Os players tradicionais sabem muito bem que os operadores de TV paga do futuro podem bem vir a ser os gigantes da Internet. Os novos concorrentes não vão ter as coisas como bem entenderem. A Apple falhou o lançamento do seu próprio serviço de televisão em direto no ano passado, talvez porque não conseguiu entrar em acordo com as estações locais de transmissão associadas, sobre quanto deviam pagar para lhes retransmitir os seus feeds. Mas as redes de cabo sabem o que aconteceu ao negócio da música depois do iTunes da Apple e outros serviços de streaming terem desagregado o álbum. Elas farão o que custar para evitar que a TV seja Spotified.

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