Telemóveis revelam (quase) tudo sobre nós

2017-01-16
Fonte: Expresso/ Vera Lúcia Arreigoso
Foto por: Cortesia de scottchan em FreeDigitalPhotos.net

O telemóvel é um poderoso instrumento de comunicação. Liga-nos aos outros e liga-se a nós próprios, armazenando informações pessoais sobre quase tudo. Além de registar chamadas e mensagens, sabe-se agora que do lado de fora armazena dados sobre o que o utilizador come, o sabonete que usa, as viagens que fez ou até os remédios que toma. Como? Basta tocar-lhe.

A ‘assinatura química’ é feita através da pele, pela transpiração ou somente pelo contacto. As moléculas das substâncias no organismo e em redor do utilizador são transferidas para o telemóvel quando lhe toca com a mão ou com o rosto. E o rasto não se apaga facilmente.
Segundo o estudo publicado na revista da Academia Nacional de Ciências dos EUA, as pequenas moléculas (metabólitos) podem permanecer na superfície do telefone durante muito tempo e mesmo quando o utilizador já não está em contacto com esses produtos. Por exemplo, o protetor solar ou o repelente de mosquitos aplicados meses antes durante as férias.
A equipa da Universidade da Califórnia, liderada pelo químico holandês Pieter Dorrestein, analisou 39 telefones e traçou um perfil dos donos a partir do rasto de moléculas encontrado, sobretudo na parte de trás. Com espetrometria de massa de alta resolução, descobriram quem pintava o cabelo, hidratava a pele, tinha irritação nos olhos, passava muito tempo ao ar livre ou tinha animais domésticos.
A utilização de detergentes com limão e de maquilhagem e o consumo de café, adoçantes, citrinos e até de pimenta também foram desvendados. Situações associadas à saúde não passaram igualmente despercebidas. No exterior dos telefones estavam registados anti-inflamatórios cutâneos, por exemplo para a psoríase; antidepressivos, antifúngicos para o pé de atleta ou candidíase; anti-histamínicos para alergias ou anti-inflamatórios.
A transferência de metabólitos para objetos já era conhecida mas foi agora pormenorizadamente estudada. O telemóvel foi escolhido pela ampla utilização no mundo moderno.
Os investigadores acreditam que a ‘assinatura química’ pode ser mais uma opção para várias áreas: forense, defesa, toxicologia, ambiente e até medicina, permitindo avaliar a resposta ao tratamento sem métodos invasivos. Falta uma ampla base de dados com as moléculas e a respetiva associação ao quotidiano.
Em Portugal a técnica é conhecida e utilizada. “Temos uma Rede Nacional de Espectrometria de Massa e uma plataforma do tipo descrito no artigo científico e metodologias para estudos de metabolómica”, explica Conceição Oliveira, responsável pelo Laboratório de Espetrometria de Massa do centro de Química Estrutural do Instituto Superior Técnico.

Do doping à cirurgia
Análise de doping, de contaminantes de rios e de águas, de pesticidas ou o controlo de medicamentos são algumas das aplicações. Conceição Oliveira dá outro exemplo: “Em Medicina há espectrómetros que durante a cirurgia identificam se os tecidos são ou não cancerígenos.”
Na rede nacional estão os equipamentos e as metodologias mais complexas e a quem as restantes entidades requerem serviços. A Judiciária, a ASAE e até hospitais, por exemplo, têm aparelhos só para testes mais comuns.
Na Polícia Judiciária (PJ) analisamos moléculas e químicos e, num plano mais micro, identificamos tintas, por exemplo, tintas de segurança de notas. Para a espetrometria de alta resolução temos protocolos com as faculdades de Ciências de Lisboa e de Farmácia do Porto ou com o Instituto Superior Técnico, por exemplo para identificar fibras”, afirma Carlos Farinha, Diretor do Laboratório de Polícia Científica da PJ.
O investigador explica que já se recorre ao estudo da ‘assinatura química’. “É utilizado para uma abordagem o mais ampla possível, alargando ao máximo o espectro de recolha e de comparação para termos mais alternativas”. Na opinião de Carlos Farinha, “o desafio é alargar os campos de possibilidades por exemplo estamos a fazer um estudo para procurar elementos químicos e biológicos nas impressões digitais para datação”. Ou seja, “se conseguirmos saber que uma impressão tem sete dias e o crime foi cometido há cinco…
Para o responsável da Judiciária, “o estudo sobre os telemóveis demonstra que vale a pensa procurar mais além”. Isto é, extrair toda a informação possível do mesmo elemento. “O que se pretende é saber cada vez mais com cada vez menos”, afirma Carlos Farinha.

Segredos Revelados
• Anti-inflamatórios para a pele, por exemplo para a psoríase;
• Ingredientes de sabonetes e de cosméticos;
• Tintas e soluções anti queda de cabelo;
• Gotas para os olhos;
• Antifúngicos para micoses;
• Detergentes à base de limão;
• Antidepressivos como o citalopram;
• Antisséticos para cosméticos;
• Protetor solar;
• Cafeína, aspartame, pimenta e citrinos;
• Repelentes com DEET;
• Anti-histamínicos e anti-inflamatórios, como o ibuprofeno;
• Pesticidas veterinários.
 

Janeiro 2017

 

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