MOZEFO: “Moçambique pode supreender o mundo pelas suas valências”

2015-02-13
Fonte: O País
Foto por: O País

O Grupo SOICO lançou em agosto do ano passado o Fórum MOZEFO, visando contribuir para um crescimento económico acelerado, inclusivo e sustentável. Numa altura em que todos os esforços convergem rumo à primeira conferência, que será dedicada ao sector da Agricultura e Pescas, o Presidente do Conselho de Administração do grupo, Daniel David, responde às questões dos jornalistas Cristiana Pereira e Tomás Vieira Mário.

Cristiana Pereira: O que esteve na origem deste fórum económico e social?

Daniel David: Somos um grupo de multimédia que interage constantemente com todos aqueles que nos assistem, nos acompanham ou lêem os nossos produtos. E há quatro anos discutíamos internamente a necessidade de, para além de comunicar, entreter e informar, contribuir também naquilo que é o pensamento do país em termos dos seus pilares de desenvolvimento. Moçambique é um país situado na África Austral, como é sabido, a África do Sul tem uma economia pujante, que também atravessa alguns desafios próprios de uma economia que saiu do apartheid para uma sociedade multirracial, temos alguns países que fazem fronteira com Moçambique que também têm seus desafios, mas atrevo-me a dizer que somos o único país que apresenta vantagens comparativas naturais bastante interessante. O país está condenado a crescer e a ter capacidade de gerar desenvolvimento impactante graças a localização geoestratégica.
A questão fundamental que surgiu na altura foi, se temos tudo isso, o que nos falta para desenvolvermos? E a conclusão, não definitiva, é que um dos fatores críticos do sucesso de uma nação está na sua gente.
O que o Grupo SOICO está a fazer é apenas colocar um palco à disposição de todos para o debate, para o confrontos de ideias e para a procura de soluções endógenas para o desenvolvimento do país.

Tomás Vieira Mário: O formato do MOZEFO é com palco aberto, isto é inovador, pelo menos no contexto moçambicano que nós conhecemos. O MOZEFO ter-se-á inspirado em alguma experiência por esse mundo fora para criar este modelo em que diferentes opiniões convergem e trocam-se conhecimentos e experiências?

Daniel David: Olhámos para o contexto, para o envolvente e tentámos adaptar a nossa realidade. Muitos fóruns pensam nos números, no PIB, na inflação, no desemprego e termina por aí. Há alguns fóruns também que pensam nas questões sociais, no desenvolvimento social, na questão da educação e da saúde. Tentámos conjugar esses fatores todos. Nós participámos no fórum Clinton Global Iniciative, participámos no World Economic Forum e também em alguns fóruns económicos e sociais que se realizam no mundo, quer a nível dos Emirados, quer a nível da Ásia, da Europa e tentámos trazer para Moçambique.
É um fórum inovador que conjuga o que chamaríamos, não sei se é uma comparação feliz, Davos e Porto Alegre juntos, o fórum social e o fórum económico. Com a particularidade de ser dos moçambicanos e tipicamente inovador.

Cristiana Pereira: Em Moçambique, organizam-se atualmente muitas conferências. Não há um risco de se tornar repetitivo? Que valor pode acrescentar o MOZEFO?

Daniel David: Já existe aqui um fator diferenciador. Muitas conferências são realizadas por várias instituições onde um grupo como o nosso, apenas faz a cobertura e divulgação. Neste momento é o próprio grupo que organiza as conferências, que tem uma plataforma dinamizadora e indutora de comportamentos e atitudes na sociedade. Ao organizarmos este tipo de conferências, queremos também potenciar a nossa política editorial para aquilo que são as linhas orientadoras do desenvolvimento do país. Induzirmos uma transformação para que a atuação quer das instituições, quer das pessoas no singular, possa ser um fator de transformação.
Teremos conferências abertas, onde vamos ter convidados específicos, mas também teremos conferências nas Universidades. Temos uma parceria com a Universidade Eduardo Mondlane, com a Politécnica e a UniLúrio, mas teremos certamente mais instituições de ensino superior a interagir connosco.

Tomás Vieira Mário: O Fórum MOZEFO tem órgãos consultivos (Comissão de Honra, Conselho Científico) integrados por figuras e personalidades de diversas matrizes e origens com interesses nas áreas económica, empresarial, académica e política. Qual foi o critério da constituição destes órgãos e das figuras selecionadas?

Daniel David: A diversidade das pessoas é intrínseca às suas áreas de atuação. Fomos buscar áreas que mostram o mosaico das atividades do desenvolvimento do país. São pessoas com alguma sabedoria e experiência, que podem dar um contributo valioso tendo em conta o conhecimento que cada um traz das suas áreas. São pessoas que atuam em diversas áreas da sociedade, mas que também são ícones do país. Existem muitos outros moçambicanos obviamente, mas tentamos escolher alguns nessa filosofia de trazer referência em várias áreas do país, que possam inspirar e trazer um conhecimento daquilo que têm feito na sua vida quotidiana.

Cristiana Pereira: Até agora aconteceram dois eventos, o lançamento em Agosto de 2014 e o lançamento da publicação sobre a Agenda 2025, em Dezembro, que tiveram uma forte adesão. Que processo é que tem sido utilizado para garantir essa inclusão e participação e, daqui para frente como vai ser feita a inclusão de todos os moçambicanos neste fórum?

Daniel David: Para nós este processo é de aprendizagem. Inclusão e participação é um dos pilares fundamentais e basilares do MOZEFO. Queremos incluir, mas também que as pessoas participem por via das conferências, por via dos debates, dos programas que vamos ter. Teremos espaço de antena na televisão e rádio, para além de publicações de jornal sobre os debates do MOZEFO e, numa perspetiva de abrangência, vamos também comunicar através das redes sociais e road shows que vamos fazer pelo país. Vamos fazer eventos em várias províncias, também ir buscando várias sensibilidades desses locais. É uma forma de inclusão e participação também nos debates.

Tomás Vieira Mário: No seu formato, o MOZEFO tem dois níveis, há um nível que é os fóruns bienais, mas no intervalo há conferências temáticas que alimentam os fóruns bienais. Começa este ciclo com uma conferência que é sobre a Agricultura e Pesca. Qual foi a ideia de escolher precisamente estes dois sectores para abrir os ciclos de conferências?

Daniel David: Na agricultura está 80% da nossa população e a nossa constituição estabelece-a como a base do desenvolvimento. O foco da Agricultura vai ser quase que transversal em quase todas as outras conferências. Porque a cadeia de valores da agricultura atravessa quase todas as outras áreas Por isso, nos focamos na Agricultura e Pesca para marcar o início das conferências temáticas e, acima de tudo, porque julgamos que é a agricultura que vai ser o fator diferenciador naquilo que serão os indicadores que impactam o desenvolvimento económico deste país. Podemos estar a crescer, mas o desenvolvimento económico passa pela transformação das pessoas e a Agricultura impacta na maior parte das pessoas do país.

Cristiana Pereira: Ao longo de 2015, diversos eventos vão acontecer, conferências temáticas, publicações e outros. Fale-nos um pouco do fórum que terá lugar em Novembro, como é que se vão integrar as questões económicas com as questões sociais?

Daniel David: O Fórum MOZEFO realizar- se-á de dois em dois anos. Teremos convidados nacionais e internacionais. Esperamos que o evento seja mediatizado em todo mundo e que seja uma referência boa sobre o nosso país. Os fóruns serão acompanhados de feiras, exposições e algumas atividades culturais. É um fórum ambicioso, gigantesco, mas a dimensão de um país lutador que os moçambicanos o fazem crescer. Podia chamar de utopia diurna porque acreditamos nos nossos sonhos.

Tomás Vieira Mário: Esses grandes sonhos, utopias como diz que o MOZEFO lança, dão os seus primeiros passos num período pós-eleitoral, períodos que são sempre de alguma crispação política e de algum debate intenso. Não antevê qualquer risco da situação de instabilidade politica que possa afetar a dinâmica que se imprime ao MOZEFO?

Daniel David: Acho que não, eu tenho um pensamento positivo e acredito no meu país. Em termos de instituições, o MOZEFO defende que temos que ter instituições fortes e um dos fatores que traz é apoiar a capacidade dessas instituições, dando subsídio através desses debates todos.
Lançamos uma parceria com o Governo, através do Ministério do Plano e Desenvolvimento, que nos acompanhou e apoiou na estruturação de alguns aspetos do fórum e pensamos que também o fórum tem na sua organização a inclusão e participação. Tem todas as pessoas, desde o camponês, o agricultor, o comerciante, membros de partidos diversos, e um fórum aberto para os moçambicanos utilizarem para o seu debate e sua discussão.
Não acredito que haja alguma crispação, nem que haja algum problema que afete o fórum porque estamos aliados também com várias instituições políticas partidárias e sociedade civil. O Governo tem participado, tem acompanhado também pelo próprio compromisso que o antigo Primeiro-Ministro assumiu no dia do lançamento deste fórum, o que demonstra que há aqui um alinhamento.
Gostaria de sublinhar uma coisa muito importante, este fórum não vem aqui ocupar o espaço do A ou do B. Vem aqui para somar, para acrescentar. Nós somos uma gota no oceano e este fórum é apenas mais uma gota que, de várias gotas que existem no país, teremos uns oceanos positivos. Achamos que é uma contribuição pequena em relação aos desafios que o país tem, mas que o Grupo SOICO deixa à sociedade, tendo em conta o seu papel social para além de informar, entreter e educar.

Cristiana Pereira: Falou da utopia e do sonho e o lema do MOZEFO é um desafio ao futuro. Como é que sonha esse futuro para Moçambique?

Daniel David: É um desafio, porque eu sonho que Moçambique tem tudo para dar certo. Moçambique pode surpreender o mundo pelas suas valências que eu aqui coloquei no início. Primeiro, a sua localização geográfica já é uma valência. As suas potencialidades na área agrícola, no litoral e nos seus recursos energéticos, sem esquecer de infraestruturas e logística. Moçambique tem tudo para dar certo, e o grande desafio é na formação do Homem, a capacitação e valorização dos moçambicanos.

Janeiro 2015

Bookmark and Share