RTP: «Ser jovem aos 60 anos»

2017-03-13
Fonte: Gonçalo Reis, ECO/ Público
Foto por: RTP

A RTP comemorou, no passado dia 7 de março, 60 anos de emissões televisivas. São 60 anos de presença constante, próxima, incontornável na vida dos portugueses. Muito tem mudado, no mundo, na Europa, em Portugal, na RTP.

A RTP é cada vez mais uma empresa global de comunicação social, que emite canais generalistas e temáticos, que faz rádio (esse meio tão especial e tão resiliente), que tem presença crescente no digital (a nossa obsessão nos tempos atuais), que publica livros, que apoia o cinema nacional, que estimula a produção independente, que promove a cultura e as artes. Longe vão os tempos em que só fazíamos televisão. E, ao contrário de há 60 anos, cobrimos hoje Portugal inteiro, com canais regionais nos Açores e Madeira, e estamos no mundo todo, estamos em África, na América, em toda a Europa, estamos em todos os continentes, próximos das comunidades portuguesas.
A RTP tem bem presente a sua responsabilidade em projetar um Portugal moderno, dinâmico, capaz, promovendo a sua cultura, a criatividade, as coisas boas que faz em tantos domínios.
Na prática, a RTP faz serviço público de muitas maneiras, em suportes tradicionais e através de novos meios ou iniciativas, mas sempre com uma identidade própria. E o fio condutor é – deve sempre ser – a procura da qualidade, a vontade de fazer bem, de fazer diferente e de fazer o novo, acrescentando ao panorama audiovisual, optando pelo interessante em vez do óbvio, preferindo aquilo que é arriscado em vez do seguro, e ambicionando ser uma referência para os cidadãos.
A RTP deve ter um caminho próprio. Movendo-se num contexto competitivo, o operador público deve assumir uma personalidade específica, gerindo os equilíbrios que são os seus equilíbrios, cumprindo as responsabilidades que são as suas responsabilidades e que passam por trazer qualidade àquilo que é popular, e por tornar popular aquilo que tem qualidade.
Escolheu-se comemorar os 60 anos da RTP olhando para o futuro, afirmando a capacidade de iniciativa empresarial e a vontade de inovação que a deve nortear. Por isso, lançou-se neste momento o site dos arquivos históricos. É um projeto maravilhoso, que permitirá a qualquer cidadão (ou estabelecimento de ensino) onde quer que esteja, em Portugal e no mundo, através do seu PC, tablet ou telemóvel, pesquisar e visualizar os conteúdos do arquivo da RTP, que se confundem com a história dos portugueses nas últimas décadas.
É também um projeto incremental, arrancou-se com a disponibilização de 6.500 conteúdos (uma coleção sólida e representativa do melhor que temos feito) e há o compromisso de acrescentar pelo menos dois mil novos conteúdos por mês, atingindo 25 mil no final de 2017 e 50 a 70 mil no final de 2018. Haverá desde o início conteúdos informativos e de programas, de vários géneros, organizados por coleções e décadas, fruto de um trabalho atento de curadoria.
Este é um projeto inovador a nível europeu. A RTP conhece bem o que fazem os operadores de referência – com orçamentos muito superiores aos da RTP – e o facto é que não têm uma prática tão aberta, tão generosa e tão avançada tecnologicamente como a que a RTP oferece aos cidadãos a partir de agora. E vale a pena referir ainda que esta iniciativa insere-se numa política a favor da inclusão que tem sido levada a sério na RTP.
Há poucos meses, numa ação concertada entre executivo, parlamento e empresa, passou-se a distribuir em sinal aberto, na TDT, todos os canais públicos, o que teve enorme impacto na melhoria da oferta para dois milhões de portugueses. Essa é afinal a essência da nossa missão: proporcionar mais e melhores conteúdos a mais pessoas. Hoje leva-se esse princípio da universalidade ainda mais longe, oferecendo a todos não só os canais de televisão mas também o acesso ao arquivo histórico.
A história dos 60 anos da RTP, apesar de todas as vicissitudes, de tanto que pode ser sempre melhorado e de momentos questionáveis, é uma história positiva de uma das grandes instituições empresariais nacionais que se mantém relevante para milhões de cidadãos em todo o mundo. E, se se pensar bem, não há tantos casos de resiliência com esta dimensão no nosso universo económico.
Talvez a RTP seja a marca com maior notoriedade do país, talvez seja um dos serviços com maior projeção internacional, talvez seja uma das empresas mais presentes no imaginário e no dia-a-dia dos portugueses – o que implica ser permanentemente alvo de reconhecimento e de críticas, de estímulo e de chamadas de exigência, de apelo ao rigor e à ambição. Mas isso faz parte do jogo. E ainda bem que assim é.

O novo arquivo digital da RTP é uma “janela para a memória coletiva”
Para assinalar os 60 anos da estação pública, foi disponibilizado online um catálogo de 6500 itens de acesso gratuito que abrangem a informação e o entretenimento.
Desde dia 6 de março, as seis décadas de história da RTP passam a estar à distância de um clique e podem ser consultadas de forma gratuita. O arquivo da estação de rádio e televisão pública, que previamente era apenas acessível a investigadores e a cidadãos que se deslocassem fisicamente às instalações da RTP, arranca com um catálogo de 6500 itens relativos à informação e ao entretenimento do canal. “O arquivo vai permitir a visualização de conteúdos históricos e criar uma nova relação da RTP com os cidadãos”, explicou Gonçalo Reis, Presidente do Conselho de Administração da RTP, durante o lançamento da plataforma, que decorreu esta segunda-feira nas instalações da RTP.
A apresentação do arquivo digital da RTP contou com a presença do Primeiro-Ministro, António Costa, que começou por assinalar a visão que o Governo tem para a estação. “Creio que esta foi a primeira vez que uma mudança de Governo não determinou nem a mudança da administração nem das direções da RTP, mas determinou uma importante mudança ao nível da tutela”. Atualmente tutelada pelo Ministério da Cultura, a RTP estava anteriormente ao cargo do então Ministro-adjunto e do Desenvolvimento Regional, Poiares Maduro. O Primeiro-Ministro referiu que o arquivo da RTP permite “conhecer bem a sociologia do nosso país” e sublinhou que a importância da missão da estação pública se desdobra em três frentes: “a política da língua – uma língua global e que se projeta para todos os continentes”, a “promoção da criação cultural” e “a preservação do património histórico”.
O arquivo online da RTP inclui conteúdos produzidos desde 1936 até à atualidade e permite viajar entre o presente e o passado através do registo textual, radiofónico, fotográfico e videográfico. O acervo, que segundo disse Gonçalo Reis em entrevista ao PÚBLICO em Novembro, exigiu um investimento de três milhões de euros, inclui 47 coleções temáticas sobre acontecimentos ou personalidades relevantes da história de Portugal (25 de Abril, Mário Soares, Estado Novo) e 55 séries de programas emblemáticos e representativos da produção da RTP ao longo dos seus 60 anos (Vila Faia, Povo Que Canta, Sabadabadú). Ao todo, são 2500 programas, 4000 notícias e milhares de horas de emissão que podem ser visualizadas pelos utilizadores. “Esta é uma janela aberta para a nossa memória coletiva”, afirmou o jornalista e apresentador Mário Augusto, que conduziu a sessão de lançamento do portal.
De acordo com Gonçalo Reis, este é um “projeto incremental”, pelo que se pretende alimentar o site continuamente numa média de 2000 itens por mês, o que deverá resultar num total de 25 mil itens no final do ano. Nesse sentido, a digitalização e automatização dos conteúdos é assegurada por uma equipa que envolve pessoas do arquivo físico e digital e da emissão e programação da estação pública. “A interface foi pensada para conciliar a vertente de arquivo puro, com motores eficientes de pesquisa simples e avançada, com a memória de programas que [os espectadores] não viram, sem pesquisa aprofundada”, explica Hilário Lopes. O responsável pelo projeto exemplificou como fazer uma busca, procurando por “Timor Leste”, obtendo resultados datados de 1975 até ao presente. O público poderá também licenciar os conteúdos para uso privado ou comercial, fazendo uma inscrição prévia que lhe permitirá fornecer os dados necessários ao processamento do pedido.
Os conteúdos do arquivo permitem percorrer não só a cronologia do canal mas do país, uma vez que durante 35 anos (e até ao aparecimento do primeiro canal privado, a SIC, em 1992) a RTP foi a única estação de televisão em Portugal. O arquivo é um recurso utilizado não só pela estação pública e pelas suas delegações espalhadas pelo país e pela comunidade de países de língua portuguesa, mas pelos outros canais portugueses que só começaram a acompanhar a atualidade do país durante os anos 1990.

Março 2017

 

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