Entrevista a Gonçalo Reis: "A relevância da RTP não se mede só pelas audiências"

2017-03-11
Fonte: Diário de Notícias
Foto por: RTP

Entrevista a Gonçalo Reis, presidente da RTP, em vésperas do 60.º aniversário da estação pública.

Diz que a RTP é muito mais do que uma televisão e que não pode ser avaliada apenas pelas audiências. Garante que a empresa não foi beneficiada no caso da TDT, diz-se feliz por a RTP ter "recuperado a capacidade de atrair talento" sem desequilibrar as finanças e desvaloriza as críticas às contratações. Em vésperas do 60º aniversário da RTP, o seu presidente, Gonçalo Reis, acredita que o operador público se reencontrou com a sua missão e que a desgovernamentalização da RTP é uma realidade dos últimos cinco anos. "De Poiares Maduro para cá". Do tempo de Miguel Relvas não sabe. Teve a "sorte" de não estar lá...

A RTP está hoje melhor do que estava aos 58, quando Gonçalo Reis assumiu a presidência da empresa?
Julgo que está. Está mais forte, mais relevante e mais abrangente. Nós estamos a comemorar agora os 60 anos das emissões televisivas. Ora, o que acontece hoje é que a RTP é uma empresa global de comunicação social. Faz televisão, faz rádio, publica livros, apoia o cinema, promove as artes e as culturas, estimula a produção independente.

A televisão continua a ser a face mais visível, a que consome mais dinheiro...
Sim, mas mesmo na televisão, a RTP tem canais nacionais, tem canais regionais, na Madeira e nos Açores, tem canais internacionais, tem canais no cabo, tem canais na Televisão Digital Terrestre e que tem tudo isso com uma crescente posição no Digital. Portanto, quando eu ouço falar do Serviço Público de Televisão sinto que isso é muito redutor. A RTP é uma empresa que presta muitos serviços públicos e de forma cada vez mais diversificada.

Acredita que quando se fala da relevância pública da RTP, sempre invocada por apoiantes e detratores, essa diversidade de que fala é tida em conta?
(pausa) Creio que nem sempre, creio que nem sempre. Mas não tenho dúvidas que a RTP está cada vez mais presente na vida dos portugueses e no seu dia-a-dia. Não só na dos que vivem cá, como na dos que vivem lá fora.

Mas essa é a sua certeza. Acha que os portugueses têm essa perceção? Não estou a falar das elites, estou a falar dos portugueses que se preocupam com o valor da Contribuição Audiovisual que pagam todos os meses na fatura da eletricidade.
Acho que essa perceção melhorou muito nos últimos anos. A RTP tem feito um esforço para estar cada vez mais presente nas várias formas de vida e de consumo de media e informação dos portugueses. E por isso digo que é mais relevante. E por isso lhe digo também que as métricas de avaliação da nossa relevância têm de ser ajustadas.

Está a falar das audiências...
Pois. Continua a falar-se muito de audiências televisivas quando aquilo que nós fazemos vai muito para além de televisão.

Sim, mas a RTP é uma empresa de rádio e televisão. E, portanto, é nesse campeonato que tem de ser colocada e comparada com os restantes players do mercado. Ou não?
Não necessariamente. Quando nós apoiamos o cinema nacional, quando nós publicamos livros, quando nós estimulamos a produção independente, nós estamos a fazer serviço público relevante e todas essas questões não conseguem ser medidas pelas audiências televisivas. Nós agora vamos disponibilizar os arquivos da RTP a todos os cidadãos. Basta ir à Internet e está lá o nosso riquíssimo arquivo. O que é que isso tem a ver com audiências? Zero. No ano passado relançámos Os Livros RTP. O que é que isso tem a ver com audiências? Zero.

Portanto, as audiências...
... Calma, eu não vou dizer que o Nuno ia perguntar (risos). O que lhe digo é que eu não gasto o meu tempo a pedir às minhas equipas que olhem para aquilo que acrescenta às audiências na televisão. Dito isto, é óbvio que as audiências são um indicador que não posso desprezar. Mas no quadro global da RTP é uma pequena parte.

Será uma pequena parte mas no caso do escrutínio público dos portugueses que consomem televisão as audiências são uma única forma tangível de medir a relevância. É a que existe.
Sim, é verdade. São um indicador fácil de seguir. A relevância da RTP não se mede só pelas audiências. Isso é uma forma preguiçosa. Mesmo em relação ao produto televisivo, nós também temos de prosseguir a diversidade de géneros, a qualidade dos conteúdos, o estímulo à produção independente, o respeito pelas minorias. E depois há um público enorme que está fora de Portugal e para quem a RTP tem de trabalhar. Mais de 35% dos acessos ao nosso digital, sejam eles aplicações, sites, newsletters, são feitos de fora do país.

Mas não o preocupa que num cenário de queda da televisão generalista, a erosão da RTP seja mais rápida? Não o preocupa com os dois canais generalistas da RTP juntos fiquem abaixo dos 15% de quota de mercado?
Vamos lá ver (pausa). O diagnóstico que fez é esse: há um cenário de queda da televisão generalista. Não é de agora. Há uma dispersão de públicos, uma fragmentação. O que é preciso é sermos cada vez mais relevantes em mais plataformas.

Isso é o reconhecimento que na televisão, como a conhecemos hoje, não há muito mais a fazer?
(pausa) É o reconhecimento que para a RTP continuar relevante, inclusivamente na televisão, tem de apostar cada vez mais em novos suportes. Inclusivamente, para defender a televisão. E uma das formas de o fazer é cruzando conteúdos, colocando-os na televisão, na rádio e no digital. Mas esta é a receita para todos, não só para a RTP. Não só em Portugal, como no mundo inteiro. Hoje há uma pulverização da atenção das pessoas e nós temos de saber responder a isso. E essa resposta é pelo Digital. Por isso reformulámos o RTP Play, lançámos as newsletters, criámos a RTP Notícias, reformulámos os nossos sites, e agora vamos colocar online os nossos arquivos. Portanto, trouxemos a urgência do digital para a agenda da empresa.

"RTP andou baralhada com a sua missão"

E isso trouxe mais portugueses para a RTP? Se virmos só pela televisão, não.
Mas esse não é o único critério. No entanto, não tenho quaisquer dúvidas que os portugueses se reconciliaram com a RTP. E, mais importante do que isso, tenho a certeza de que a RTP se reconciliou com a sua missão.

Andou perdida?
Andou baralhada (sorriso). Entre uma vontade de ser pública e uma vontade de ser privada. Entre uma vontade de prestar um serviço diferenciador e se aproximar das comerciais. Entre tentar ser um operador de referencia ou tentar ser um operador mais combativo. Acho que claramente que a RTP se reconciliou com a sua matriz clássica de serviço público. Tentarmos ser um operador de qualidade, de referencia, que faz algumas coisas que os privados não estão dispostos a fazer e que não faz algumas coisas que os comerciais têm de fazer. Acho que a empresa voltou a vestir bem essa pele.

Mesmo que a fatura a pagar seja, muitas vezes, ter cinco ou oito por cento de share em horário nobre...
(pausa) Esse posicionamento dá caráter e posicionamento. Quanto mais carregarmos na tecla da diferenciação e da qualidade, mais identidade própria a RTP tem. E isso será valorizado.

Pelo público?
(sorriso) Sabe que eu sou um otimista. E, portanto, acredito que o bom, mais cedo ou mais tarde, há de vingar. O papel da RTP é também puxar pela qualidade e dar qualidade ao que é popular e tornar popular aquilo que se faz com qualidade.

O seu otimismo em relação à capacidade dos portugueses em reconhecerem aquilo que diz ser a qualidade da RTP tem... prazo de validade?
Estamos serenamente a fazer aquilo que faz sentido na RTP. As equipas estão todas mobilizadas em torno deste posicionamento. A cultura da RTP rejeita lógicas comerciais como as de antigamente.

Não há a volta a dar?
Não, não há volta a dar. Essa estratégia de ser igual aos privados, de preparar a empresa para uma futura privatização, foi abandonada. E ainda bem. Isso eram estratégias que davam alguma competitividade no curto prazo à RTP, mas a médio prazo esbatiam a razão de ser da empresa e enfraqueciam a sua posição e sustentabilidade.

Não reconhece ainda alguns resquícios desses tempos no dia-a-dia da programação e informação da RTP?
Acho que o foco das equipas editoriais tem estado na diferenciação dos nossos canais. Mas nós também temos de segurar os públicos. E isso é válido para a RTP, como para qualquer jornal ou para qualquer museu que tem determinada programação. Por isso, faz parte ter programação de qualidade e, em paralelo, programação para o grande público. Não vejo contradição. Por isso, mantemos programas de day time, de desporto, de entretenimento que, com determinados padrões de qualidade, são programas que atraem as famílias e o grande público.

"A RTP não foi beneficiada com a TDT"

A RTP foi beneficiada no processo da TDT, como acusam as privadas?
Não, nada disso. A RTP foi a que mais seriamente trabalhou nesse processo e todos vão lucrar com isso. A entrada da RTP3 e da RTP Memória na Televisão Digital Terrestre foi o grande abanão do mercado nos últimos anos. Depois do nascimento da CMTV, foi o grande abanão do mercado. Estes dois canais da RTP, em conjunto, tinham uma audiência pouco superior a 1% e hoje estão a bater nos 3%.

Por isso mesmo é que os privados reiteram que não entendem por que razão a RTP foi beneficiada neste processo.
Mas não têm razão. O balanço da presença da RTP na TDT é altamente positivo. Para a RTP, claro, mas sobretudo para a população. Repare que temos cerca de dois milhões de pessoas que veem a televisão digital terrestre que, no fundo, tiveram uma oferta melhorada. E esse é também o nosso papel: levar mais conteúdos a mais pessoas.

Mas não acha razoável que a SIC e que a TVI também queiram levar mais conteúdos seus a mais pessoas?
Acho, mas como lhe dizia há pouco, a RTP foi quem mais batalhou neste processo por encontrar soluções. O que queremos é garantir a universidade do acesso aos nossos conteúdos. Que todos os portugueses que queiram possam ver a televisão pública. Portugal era o único país da Europa que não tinha todos os seus canais de serviço público acessíveis livremente na TDT. Já vamos com dois meses e meio de emissões na TDT: a RTP3 duplicou a audiência e a RTP Memória triplicou os seus valores. O que mostra que a apetência estava lá. E mais: é óbvio que um canal de informação e atualidade como a RTP3 tem de estar na TDT.

Permita-me que insista neste ponto: e canais de informação e atualidade como a SIC Notícias e a TVI24 não têm de estar?
(pausa) Mas há espaço para elas. O interessante no modelo que foi definido pelo Governo é que há espaço para todos. E deixe-me aqui elogiar o Governo. Este era mais um daqueles impasses em que Portugal se especializou. E foi resolvido. O Governo teve vontade e executou, o Parlamento ajudou e a RTP disponibilizou-se e resolveu-se.

Mantenho a minha: resolveu-se para a RTP...
Não, resolveu-se para o setor todo. A solução é muito equilibrada e abrangente, porque permite desde o momento zero a ocupação de quatro novos canais. Tal como sempre dissemos, a RTP não pretende dominar a TDT. Pretende fazer o seu papel, que é colocar todos os seus canais na TDT. Agora está feito e há espaço para dois canais de operadores privados. Vai haver o concurso e tudo se resolverá. O facto de a operação estar a correr bem à RTP também vem estimular o mercado e permitir que outros players possam entrar no concurso. É assim que se desfazem os dogmas de que a TDT sofria. Afinal, ao contrário do que se dizia, aquela plataforma é relevante.

Se fosse gestor da SIC ou da TVI não estaria também a acusar a RTP de ter sido beneficiada?
Mas não sou, Nuno. Aí, cada macaco no seu galho (sorriso). Sou gestor da RTP e a mim cabe-me gerir a RTP e colocar os nossos canais na TDT. Está feito. Mas os operadores privados já beneficiaram deste movimento porque nós negociamos a bem com a Portugal Telecom, reduzindo o valor unitário dos custos de distribuição. E isso foi replicado para os operadores privados. Portanto, estão a ter um ganho económico. E ainda bem, eu fico contente com isso. Além disso, esta dinâmica criada pela RTP gerou uma apetência que pode agora ser aproveitada pelos restantes operadores. Portanto, sejam bem-vindos.

"Falta mais país e mais regiões"

Há quem diga que a TDT, e o aumento da audiência que trouxe consigo, foi a tábua de salvação da RTP3.
Nem pensar, nem pensar! (enfatiza) Nem pensar! A RTP3 já estava num caminho de afirmação, de qualificação, de atrair talento, novos protagonistas. Hoje tem uma grelha muito interessante. É um canal de informação onde os grandes opinion makers querem vir. Há um ano isso não acontecia.

Mas isso não foi percecionado pelo público. Volto a entrar nas audiências, porque é o único indicador quantitativo que temos para medir a aceitação do público. Fora da TDT, a audiência da RTP3 manter-se-ia sempre entre os 0,8 e os 0,9%...
Já havia um crescimento de qualidade e de públicos. E agora duplicou com a TDT. Tem 1,7% de quota de mercado, muito próxima da TVI24 e mais perto da SIC Notícias.

Graças à sua entrada na TDT, onde, repito, os outros operadores não estão.
Mas a TDT faz parte do mundo, não é uma invenção, não existe em Marte, existe em Portugal. Portanto, o facto é que a RTP3 duplicou a sua audiência. Se me pergunta de a TDT foi uma vitamina adicional para a RTP3 e a RTP Memória, eu respondo-lhe sem hesitar que sim. Foi, é verdade. Mas a RTP3 já estava a fazer um bom caminho, com programas de grande nível, com um leque de comentadores muito mais rico do que tinha, com uma dimensão da economia e da agenda empresarial que não tinha há um ano. Há uma notoriedade e credibilização do canal, graças a esse esforço, à mobilização das equipas, à entrada de sangue novo...

Que caminho é que espera para a RTP3?
Acho que lhe ainda falta mais país, mais regiões. É claro que cada vez dá importância à Informação internacional, com bom comentário, boa análise. Não tenho qualquer dúvida que nos últimos meses a RTP3 chegou ao campeonato dos grandes.

O que é isso significa?
Significa que estando no campeonato dos grandes, tem uma identidade e uma serenidade próprias. Mantendo esse tom de qualidade e de um certo comedimento, acho que pode fazer mais.

Como é que olha para a concorrência?
Não gosto muito de falar dos concorrentes em concreto, mas acho que é um mercado muito ativo. Temos bons exemplos de canais de informação em Portugal.

São quantos, já agora?
(pausa, seguida de sorriso) Temos claramente a SIC Notícias e a TVI24 e, depois, existe também o canal do Correio da Manhã, que tem componentes de informação e que tem componentes de canal generalista de entretenimento.

Esse canal que "existe também", para utilizar uma expressão sua, é o canal preferido pelos portugueses no cabo. Em sua opinião, a CMTV está no mesmo campeonato que a SIC Notícias, a TVI24 e a RTP3?
Acho que cada um tem a sua identidade. Há os técnicos e os académicos para definirem qual é a natureza de cada canal. Existem as entidades reguladoras para se pronunciarem sobre isso. São canais concorrentes do nosso, são canais que eu particularmente sigo, e é um mercado muito concorrencial.

Segue a CMTV?
Eu sigo todo o mercado concorrencial. Eu respeito o Correio da Manhã e a CMTV. Uma coisa são as minhas preferências pessoais (prefiro ler o The Guardian e ver a France 24), outra coisa é a minha visão enquanto protagonista deste mundo. São meios a ter em conta. Há ali uma eficácia, há ali uma combatividade e uma vontade de ir para a rua e para o país que deve ser tida em conta. Eu digo sistematicamente às nossas equipas para verem o que se passa à volta.

Deixe-me ver se percebi: o presidente da RTP aponta muitas vezes a CMTV como um exemplo a seguir?
(pausa) Não no concreto. Mas aponto, sim, a CMTV como um fenómeno com eficácia e com relevância no panorama. Seria uma tolice não o fazer. Tanto a CMTV como a SIC Notícias ou a TVI24. Não podemos ter palas. Há alguns exemplos de eficácia, de espírito aguerrido e de ir para a rua, que são interessantes.

Costuma dar conselhos aos diretores editoriais?
(gargalha) Essa pergunta é provocatória, mas a resposta é não. Não e não. E por duas razões. Primeiro, porque o presidente do Conselho de Administração da RTP não se imiscui nos assuntos editoriais. E depois porque os nossos profissionais são os melhores e não precisariam disso. A nossa identidade, o nosso histórico, a nossa credibilidade falam por nós. Mas eu não estou chegado numa redoma. O que digo às nossas equipas é "olhos abertos ao que a concorrência nacional e internacional faz".

"Voltámos a atrair talento em anos de contenção"

Há dois anos fiz-lhe a primeira entrevista como presidente da RTP. Na altura discutiam-se muito os chamados "ordenados milionários". Mas lembro-me que me disse que que um dos seus grandes objetivos era que a empresa pudesse ter capacidade para atrair o talento nacional e os bons profissionais do mercado. Dois anos depois, justamente, há quem critique a empresa de ter atraído muita gente. Até de mais, tendo em conta o racionalismo de gestão. Como responde a essas críticas?
Acho que é tudo muito positivo. A RTP voltou a estar no mapa competitivo, voltou a ter capacidade de atrair talento e estamos a fazer as coisas de maneira a assegurar a sustentabilidade empresarial. Começo pela crítica às contratações e aos valores. É simples: 2015, 2016 e a previsão para 2017 são unânimes: anos de absoluta contenção. Ou seja, os gastos com pessoal e com fornecimentos externos estão absolutamente estáveis. Temos conseguido outras medidas de eficiência que suportam a atratividade de talento.

Como por exemplo?
Não temos feito muita gala nisso, até porque isso são assunto do foro interno da empresa, mas também têm saído muitas pessoas, e com determinados custos. Temos sido capazes de equilibrar a balança. Mas eu fico contente que a RTP esteja com um projeto que seja atrativo para o mercado. E fico contente que, voltando até à tradição de ter os melhores profissionais do mercado, tenha sido capaz de atrair esses talentos. Sempre tivemos gente de enorme qualidade em todas as áreas. Do Fernando Lopes ao Mega Ferreira, passando pelo Graça Moura e tantos outros. Recuperarmos esse padrão é positivo. Estamos a fazê-lo mantendo equilíbrios financeiros e os gastos com pessoal, em anos que tem havido reposições salariais com significado para a generalidade dos trabalhadores.

Portanto, não acha justa a crítica que foi feita, por exemplo, à excessiva composição da direção de Informação da RTP?
Eu sei que há uma certa crítica dominical que gosta muito de zurzir na RTP, mas isso não faz sentido. Tanto na área da Informação como na área da Programação, a empresa tem equipas sólidas e de muito talento. Na área da Informação em concreto, temos uma excelente equipa e adaptada à realidade da nossa missão e dos nossos canais. Temos uma grande ambição.

Consegue assim de repente dizer quantos elementos compõem a direção de Informação?
(gargalhada) Consigo, consigo. Até lhe consigo dizer por nomes. O Paulo Dentinho, o António José Teixeira, o André Macedo, o Vítor Gonçalves, a Ana Pitas. Conheço-os todos.

Calculo que conheça, mas não estão aí todos...
(sorriso) Ah, sim, depois há subdiretores. Há o Hugo Gilberto... (pausa). Julgo que conheço bem a casa e que conheço bem as pessoas. A direção de Informação da RTP é qualificada, é diversa, reúne competências várias de canal generalista, de canal de cabo, de gente tradicionalmente da casa, de gente que veio de fora, de várias tendências de pensamento. Essa riqueza é a riqueza da RTP. A riqueza do pluralismo, da complementaridade, de uma RTP que produz hoje uma informação qualificada e diversificada como não tinha há dois anos. A aposta no Internacional é decisiva para afirmar uma empresa de referência. A cobertura do Brexit, das eleições americanas, o trabalho que estamos agora a fazer em França são tudo exemplos desses.

E na programação? Está contente com os resultados?
Estamos a fazer o nosso caminho. Esta aposta nas séries na RTP1 faz todo os sentido. E acho que tem havido bons programas de entretenimento. Mas a aposta nas séries é estrutural e temos de ser pacientes neste trabalho. Vivemos na idade de ouro das séries lá fora. E nós achámos que a RTP não podia viver à margem dessa realidade. Esse é o nosso papel. Temos de estar na linha da frente, estimulando o mercado. Como historicamente fez com as novelas. Lembre-se das primeiras novelas portuguesas. Nessa altura, também havia a discussão sobre a utilidade e a correção dessa aposta. Era o tempo em que as novelas brasileiras eram líderes de audiência em Portugal. Hoje já não são. E as novelas portuguesas ultrapassaram-nas. A realidade está aí para provar quem tinha razão. Hoje há uma indústria de novelas, que começou aqui e que, muito bem, os privados souberam trabalhar e aprofundar. Porque, em determinado momento, alguém tomou essa decisão arriscada cá na casa. E o que nós estamos a dizer agora é que a RTP não tem nada a acrescentar ao terreno das novelas. Ele está bem coberto pelas privadas. Temos é de ir buscar as melhores práticas e a ambição internacional de fazer boas séries em português.

"Nuno Artur Silva é um homem que pensa fora da caixa"

A RTP não tinha estrutura interna suficiente para a sua programação? Falo em quadros, técnicos, recursos, criativos...
A RTP produz hoje internamente muito mais do que produzia. Nós desfizemos as políticas de outsourcing que estavam a conduzir à desvitalização da empresa em vários setores. Era, julgo eu, um caminho claro para a privatização. Invertemos essa política. Todo o day time, que estava a ser feito fora, passou a ser feito internamente. E muitos outros programas também. Até o programa do Provedor era feito de forma externa, imagine. Apostámos muito em fazer coisas dentro de casa. Com os nossos estúdios, com as nossas equipas, com os nossos equipamentos. Mas não podemos ir a todas. Portanto, a ficção é feita fora, até porque estamos a estimular produtores independentes, criadores e realizadores que não estão na empresa. Conseguiu-se um equilíbrio sereno. O apoio à produção independente e ao cinema cresceu 30% em relação a 2014 e é hoje superior ao que são as nossas obrigações legais.

Isso é mérito de Nuno Artur Silva, seu colega na administração com o pelouro dos conteúdos?
Isto estava no nosso Plano Estratégico que foi aprovado pelo Conselho Geral Independente. Mas sim, o Nuno Artur Silva é um homem com uma sensibilidade muito grande para estes temas. Acho que tem defendido, e muito bem, esta política e estimulado estas áreas criativas. É alguém que pensa fora da caixa. E que trouxe conhecimento em conteúdos e um certo arejamento. É alguém que desenvolveu essas capacidades no mercado, não foi em Marte. Foi em Portugal. É uma riqueza para a RTP ter na administração alguém com conhecimentos do setor dos conteúdos. Esse alguém alarga o leque de possibilidades.

O que é que isso significa? Nuno Artur Silva é criticado muitas vezes por ter trazido para a RTP muita gente das Produções Fictícias. Isso é um assunto para si?
Não. As regras na RTP são muito claras. A administração nomeia os diretores, que são pessoas com personalidade, com conhecimento e que tomam decisões concretas de programação, de informação e de colaborações. Mas ainda bem que falou desse assunto, para acabar com esse mito. As regras são claríssimas: a RTP não encomenda nada às Produções Fictícias, nem ao Canal Q.

Mas é inquestionável que nos últimos dois anos houve profissionais das Produções Fictícias e do Canal Q que passaram a colaborar com a RTP...
(pausa) As colaborações são sempre decisões das direções. Eu vejo o Nuno Markl no júri do Festival da Canção. Acho muito bem. Mas vou afastá-lo, ou não vou escolhê-lo, porque em tempos ele colaborou com o Canal Q? Acha isso normal?

Não estou aqui para fazer juízos de valor. Estou a fazer perguntas, que é o que devo fazer neste contexto.
Certo, certo. Mas para responder claramente a essas críticas a que alude, e que eu conheço, deixe-me dizer-lhe: nós valorizamos muito os quadros internos da RTP. Estimulamos a nossa criatividade e competência. Damos muitas oportunidades às pessoas da casa. Sempre que vem gente de fora, há um certo frisson. É natural. Eu estava na administração do Dr. Almerindo Marques, quando a RTP contratou o João Adelino Faria. Mas alguém duvida que ele é um dos mais reputados pivôs da televisão portuguesa. É um grande ativo desta casa. Temos de desdramatizar esse tipo de questões.

Dizia há pouco que falta mais país, mais regiões à RTP3. Isso é o reconhecimento de que continua a haver uma excessiva concentração em Lisboa?
Não, mas temos de continuar a trabalhar para chegar longe. O que dizemos às nossas equipas é para termos mais país, mais Portugal, para irmos mais para a rua ao encontro dos portugueses. A região Norte tem uma relevância estrutural para a RTP, aliás, temos vindo a valorizar o Centro de Produção do Norte.

"O Norte vai manter toda a importância para a RTP"

O Norte queixa-se com frequência de perder peso em relação à capital.
Garanto que o Norte vai manter toda a sua importância para a RTP. Temos uma visão que é inclusiva face às capacidades regionais, queremos que a RTP seja uma empresa não apenas bem implantada no país todo, mas que reflita em antena, na rádio e na televisão, as valências das várias regiões. Aliás, se bem se lembra, uma das primeiras ações que realizámos foi voltar a internalizar a produção do day time e fizemos regressar o Praça ao Centro de Produção do Norte, de onde aliás nunca deveria ter saído. Além disso, mantemos o programa de formação externa para jovens talentos, Academia RTP, baseado no Norte. A produção diária da RTP3 a partir do Norte tem um peso muito significativo no canal, o Jornal da Tarde da RTP1 e a RTP2 também tem vários programas realizados pelas nossas equipas do Norte, não só o Jornal das Nove do João Fernando Ramos, como outros.

Ainda em fevereiro, o presidente da Câmara de Viana do Castelo, e presidente da Comissão Intermunicipal do Alto Minho, indignou-se pelo alegado encerramento das delegações de Braga e Vina do Castelo.
Essa mini polémica já está resolvida e tudo não passou de um mal-entendido. A RTP está a apostar no interior e numa maior cobertura regional, como demonstra a recente aposta em abrir presenças em Beja e Vila Real. Temos vindo a desenvolver um modelo de delegações regionais em que os nossos correspondentes utilizam instalações integradas em Universidades ou Politécnicos, com as vantagens associadas de partilha e interessantes possibilidades de intercâmbio e formação.

Mas no caso concreto dos correspondentes de Viana e Braga, pode assegurar que eles não vão ser deslocalizados dos concelhos para o Porto?
A RTP assume o compromisso de manter correspondentes em Viana do Castelo e em Braga. Aliás, posso dizer-lhe que estamos em contacto com o Politécnico de Viana do Castelo e com a Universidade do Minho, em Braga, para estudar as possibilidades de aí adotar o novo modelo que tem sido bem acolhido em outras regiões. Falei com o Presidente de Câmara de Braga, Ricardo Rio, e com o Presidente de Câmara de Viana do Castelo, José Maria Costa, e transmiti essa posição - que vai ao encontro às opções das Direções de Informação - e que no geral foi bem recebida.

Muito bem, mudemos de assunto. Uma das transformações estruturais operadas nos últimos anos foi a mudança da tutela e a passagem da RTP para a esfera da Cultura. Como tem sido essa convivência?
Muito boa. Fico muito contente que a RTP, pela primeira vez, esteja no universo da Cultura, seguindo o padrão dos países mais civilizados da Europa. No Governo anterior, o ministro Miguel Poiares Maduro deu um um passo muito importante ao criar o Conselho Geral Independente, um órgão de supervisão e fiscalização que dá garantias adicionais de autonomia, estabilidade e independência à RTP. Foi muito positivo. Este Governo deu um passo decisivo em frente. Manteve o CGI e retirou a RTP da tutela setorial, que tipicamente era política - lembre-se que os ministros que tutelavam a RTP eram o dos Assuntos Parlamentares, o Ministro-adjunto do Primeiro Ministro ou o Ministro da Presidência -, para integrar na Cultura. Só posso aplaudir a ideia e revela um maior, e ainda mais claro, distanciamento político.

Este é o segundo elogio rasgado que faz ao governo socialista. Confirma-se o que me disse numa entrevista anterior: é um homem de direita que gosta de trabalhar com gente de esquerda...
(gargalhada) Verdade. Tenho discutido várias vezes com o ministro da Cultura sobre a forma como a RTP pode apoiar a divulgação das artes, da cultura e do património. Como devemos interagir com os agentes culturais e como podemos promover a criatividade nacional lá fora. Isso é uma agenda muito interessante. Na nossa agenda nunca está na qualquer controlo editorial. A RTP evoluiu muito, muito nessa área nos últimos anos.

"Hoje há uma completa despolitização da RTP"

Sente que os portugueses aperceberam-se dessa mudança? Ou continuam a achar que há uma grande presença do Estado e dos Governos na RTP?
(pausa) Acho que a realidade está a encarregar-se de demonstrar uma grande autonomia, uma grande isenção e até pluralismo da RTP. Todos os estudos qualitativos mostram isso. O cidadão voltou a valorizar as instituições públicas. Ainda há tempos tivemos uma conferencia com a presença do General Ramalho Eanes, que foi presidente da RTP e depois Presidente da República. E ele contou em público que naquele tempo, quando era presidente da RTP, ia a despacho semanal com o primeiro-ministro.

Isso era nos anos 70. Hoje há formas mais sofisticadas de fazê-lo...
Hoje e anteriormente. Nos anos 80 e 90 não iam a despacho direto com o primeiro-ministro, mas havia outros mecanismos que estão bem documentados. Hoje há uma completa despolitização da RTP. A realidade dos últimos cinco anos é muito diferente. E sempre a melhorar.

Portanto, quando diz de há cinco anos para cá, quer dizer... de Poiares Maduro para cá.
(sorriso) E sempre a melhorar.

Antes de Poiares Maduro, a tutela da RTP pertencia a Miguel Relvas.
(sorriso) Não quero, enfim, traçar linhas geométricas, até porque não estava cá. Tive essa sorte (sorriso).

Registo essa confissão. Já aqui elogiou o Conselho Geral Independente. Como é a relação entre o CGI e a administração da RTP?
Muito boa. O Conselho Geral Independente tem uma composição muito diversificada, diversa e interessante. Tem um trabalho de acompanhamento e cada órgão tem o seu registo. Profundidade não é sinal de notoriedade. O CGI aprova o Plano Estratégico, as grandes linhas. Discutimos as grandes opções, as grandes iniciativas. Tipicamente, reunimo-nos uma vez por mês e intervém quando acha que deve intervir. Acabou de publicar um relatório em que, genericamente, faz uma apreciação positiva, e em que identifica alguns elementos que nós vemos como pistas a seguir. Desta vez fala da modernização tecnológica. É uma contribuição muito útil, mas cada um tem o seu registo.

Estamos no quarto andar deste edifício, onde estão os gabinetes da administração, mas também os do Conselho Geral Independente e do Conselho de Opinião, com quem protagonizou uma polémica recente, a propósito da indigitação dos provedores.
É verdade, é um piso muito abrangente (risos). A RTP tem uma série de entidades e órgãos que se pronunciam sobre a empresa. Desde logo o CGI, mas também o Parlamento, o Tribunal Constitucional, a Comissão de Trabalhadores, a ERC, os vários sindicatos que se pronunciam sobre a RTP. Enfim, se há empresa escrutinada em Portugal é a RTP. Cada organização tem as suas lógicas, os seus ritmos. O que procuro é aprender com todos e integrar todas as sensibilidades, defendendo sempre a empresa. Gosto de ouvir opiniões de todos os quadrantes. Nunca me sinto acossado com críticas, não me sinto obrigado a incorporar todas as contribuições externas. Acho que devemos estar de cabeça aberta, com ouvidos disponíveis.

Três semanas depois, com a cabeça aberta e ouvidos disponíveis, já percebeu o que se passou ali no fundo do corredor com o veto do Conselho de Opinião a João Paulo Guerra como Provedor do Ouvinte da RTP?
(pausa) Não me interessa o que acontece no fundo do corredor. O que me interessa é que a RTP indicou para provedores gente com enorme qualidade: o Jorge Wemans, um homem com enormes qualidades, um homem de cultura, que foi diretor da RTP2, que foi provedor do Público, diretor da Lusa. Já está em funções, mas mesmo assim não foi votado com uma maioria muito larga, mas não interessa. O que interessa é que já está em funções. Indicámos para a rádio o Joaquim Vieira, que eu acho que também tinha excelentes condições, sem experiência em rádio, mas com uma vasta cultura nos media. Tinha valências muito positivas, mas não passou. Tudo bem. Indicámos o nome do João Paulo Guerra, um nome maior da rádio em Portugal. É um histórico, com um percurso de vida incrível e que está genuinamente entusiasmado em fazer este lugar. O Conselho de Opinião analisou, vetou e não fundamentou a sua decisão. E portanto a forma como o Conselho de Opinião conduziu o processo fez com que o parecer se tornasse irrelevante neste caso. Portanto, com toda a tranquilidade e cordialidade, prosseguimos com as nossas convicções e nomeámos o João Paulo Guerra. Está resolvido.

Está resolvido de uma forma administrativa, porque foi o facto de o CO se demitir das suas funções e de não justificar o veto, como defende a Lei, que permitiu à administração manter a nomeação.
Não é uma decisão administrativa, é uma decisão de convicção. O Conselho de Opinião não vetou o nome, e nós nomeámos.

Não, o Conselho de Opinião vetou. Só que não justificou. Teve uma leitura diferente da lei.
Eu tenho a vantagem de não ser jurista (risos). Se não justificou o veto, esse veto é nulo. Foi o caso. Foi um episódio. Não guardamos qualquer ressentimento em relação ao Conselho de Opinião.

Percebe por que razão João Paulo Guerra foi vetado?
Não, mas tem de perguntar ao Conselho de Opinião.

Já perguntei, mas agora pergunto-lhe a si. O percurso profissional de João Paulo Guerra é conhecidíssimo. As suas opiniões pessoais também. Acredita que foram convicções políticas?
Não vou fazer análise e não vou entrar na cozinha do Conselho de Opinião. Ponto. O tema está resolvido.

"Gosto muito de ser presidente da RTP"

Continua a dar-lhe um grande gozo ser presidente da RTP?
Continua, continua. Gosto muito. Tenho um grande entusiasmo, força anímica e vitalidade. Eu e toda a equipa. Acho que a RTP é uma empresa apaixonante. Trabalhar na RTP é lidar com múltiplas ideias: da cultura, ao desporto, à informação, à música, à produção. É muito enriquecedor, até porque temos imenso talento concentrado cá em casa.

E continua a ter vida?
Continuo, sim (sorriso). A vida de presidente de uma empresa como a RTP é muito exigente, mas não pode confinar-se ao trabalho. Até porque é preciso continuar a ter mundo, a ver cinema, a ir a concertos, a ver exposições. Esse é um gosto desde sempre. Mas sabe que isso acaba por se fundir com o meu trabalho. Um presidente de uma empresa como a RTP, e com esta missão que nós temos para esta casa, também deve marcar presença na vida pública e cultural do país.

E ainda tem tempo para o seu jogging matinal?
(risos) Matinal, não. Semanal. E já não é mau. E ando a esforçar-me para treinar para fazer a Meia Maratona de 19 deste mês.

A meia ou a mini?
(gargalhada) Depende. Diria que neste momento estou preparado para fazer a mini, mas ainda tenho umas semanas para treinar.

Bem, se fizer a mini, encontramo-nos em cima do tabuleiro da Ponte. Mas eu vou a andar.
Está combinado (gargalhada)!

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